sexta-feira, abril 11, 2008

SEM TITULO

Eu sou a que procura uma certeza
Na incerteza de dias sempre iguais.
A que busca a vida na estreiteza
Destes caminhos que não terminam mais.



Eu sou a de infinitos ideais,
A que conhece da vida a aspereza,
A que mais sofre porque ama demsis,
A que mais ri porque tem mais tristeza.



Eu sou a do sonho irrealizado,
Sou a sem futuro e sem passado,
Sou quem mais esoera e mais deseja.



Eu sou um coração desfeito em pranto,
Sou barco perdido em mar de espanto,
Mas sou a que não esmola nem rasteja!





FEIA

domingo, abril 06, 2008

AMIGA!




Quantas vezes somos maltratadas

Pela vida... faz com que perdemos o rumo
O destino com suas armadilhas disfarçadas
Nos pregam peças nos tirando do prumo...

Tempestades caindo sobre a tarde

Trazendo nessas nuvens, solidão...
Nas preces, peço a dor que se retarde
Mas ouço tão somente o mesmo não...

Vencida pelas dores, indefesa,

Evito que a solidão me abraça...
medo o pavor da dor e da tristeza,
Minha lágrima perdida não se disfarça...

Ambas estamos lambendo nossa ferida
A dor tem sido difícil suportar

Nos braços que me deste, minha querida!
Eu não sei por que não soube aportar.





Solange Silva





quarta-feira, abril 02, 2008

NA MÂO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!



(Antero de Quental)

domingo, março 30, 2008

TEATRO DA BONECA

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.

A menina gostava loucamente da boneca
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.

Agora já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.

A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.
A boneca.



Carlos Queirós

domingo, março 16, 2008

POEMA DA MENINA TONTA




A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa pela rua,
que a outra metade fica
pr'a namorar-se no espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre as flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda,
a boca sem desejos,
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta tem a cabeça cheia de farelos.
***
Manuel da Fonseca, Poemas Completos


quinta-feira, março 13, 2008

UM SONHO


Sonhei que me mataste e tive pena

Da dor que de fazê-lo sentirias...

Não te rias, meu anjo, não te rias

Nossa alma pode ser de afectos plena,


Olhar a morte impávida e serena

E sucumbir a alheias agonias.

O mais pungente dessa triste cena

Era, acredita, ver que padecias.


Tendo-me morto tu depois choraste...

Ouvi-te ali, sem me poder mover

Sentindo em dor o coração estalar!...


Sonho maldito que o Senhor afaste:

Ter-te junto de mim, ver-te sofrer

E não ter voz para te consolar.




Maria d'Eça Leal

domingo, março 09, 2008

POESIA




Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.


(William Shakespeare)

quinta-feira, março 06, 2008

SE

Se eu pudesse parar a minha vida
E dar eternidade a um só momento
Se eu não tivesse o meu destino preso
Ao destino das cousas nos espaços
Se eu pudesse destruir todas as leis
E dentro do universo que se move
parar meu mundo:
-havia de escolher esse segundo
em que você estivesse nos meus braços!



(desconheço o autor)

sábado, março 01, 2008

O MESMO CAMINHO


Deixa correr, serenas, estas horas...
Não me despertes, não!... quero sonhar!
Horas felizes, horas redentoras,
Quero gozá-las... podem não voltar!


Embala-me! - são horas tentadoras...
Envolve-me na luz do teu olhar,
De pupilas astrais, encantadoras,
E deixa-me a teu lado caminhar!...

Não me abandones! - deixa-me segir
O teu caminho, que eu vejo, a sorrir,
Entre miragens de felicidade!

Seguiremos, com dúlcido carinho...
O teu será também, o meu caminho
Que nos há-de levar à eternidade!


M.Jose Alves Pereira da Silva

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

POESIA


Na aguarela flamante que é a vida
Passo deslizando quase etérea.
Para mim já não há rostos nem há sons
E à minha volta há apenas névoa
E a recordação do tempo que se evola.
Estou presa numa cela sem ter grades
Nada me prende e tudo me subjuga
Todos condenam mas ninguém me julga.
Oh! meu amor pudesse eu fugir de tudo,
Entregar-me toda a ti sem ter receio
Que a vida volte a ter formas concretas,
Mas olho em volta e apenas resta
A recordação do mundo dos teus olhos
E dos braços meigos com que tu me apertas.
**************
Autor desconhecido

domingo, fevereiro 24, 2008

MEU SONHO




(Cecília Meireles)


Parei as águas do meu sonho

para teu rosto se mirar.

Mas só a sombra dos meus olhos

ficou por cima, a procurar...


Os pássaros da madrugada

não têm coragem de cantar,

vendo o meu sonho interminável

e a esperança do meu olhar.


Procurei-te em vão pela terra,

perto do céu, por sobre o mar.

Se não chegas nem pelo sonho,

por que insisto em te imaginar ?


Quando vierem fechar meus olhos,

talvez não se deixem fechar.

Talvez pensem que o tempo volta,

e que vens, se o tempo voltar.


segunda-feira, fevereiro 18, 2008

VOLTA


Volta que eu abro-te a porta,
Ao menos p'ra convencer-me
Que nunca vivi sem ti;
Volta que eu já não me importa,
Agora quero esqucer-me
Do tempo que te esqueci.

Volta, que eu já perdoei...
Vem à hora que quiseres,
Escusas de fazer alarde;
Tu has-de voltar, bem sei...
Volta hoje se puderes
Que amanhã pode ser tarde.

Dize que vens, e que é certo,
Jura p'la amizade nossa,
Que inda a não perdi...
A morte já anda perto.
Ao menos deixa que eu possa
Morrer abraçada a ti...


(Desconheço a autora)

sábado, fevereiro 16, 2008

CRISÁLIDA


Nas horas de silêncio, olhos fechados
Ao beijo hipnótico do luar bendito,
Que asas leves são essas que eu agito
Por longínquos caminhos ignorados?
Que assa fluidas são essas que, se fito
Do alto delas os mundos afastados,
Meus olhos logo sinto deslumbrados
Na luz dessas pupilas do Infinito?!
Asas leves, mais leves do que a aragem...
E fluidas, vaporosas como a imagem
Dum clarão sobre as águas fugidias...
Asas que me arrebatam, céus em fora,
Para onde o sonho vive e onde a luz mora,
Ao êxtase das divinas alegrias!
Beatriz Pinheiro

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

POESIA


"Esta saudade és tu.. . E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dois anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu ... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram.

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu ... é a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva...
enquanto eu morro no meu pensamento.


( J. G . de Araujo Jorge - coletânea -"Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)

sábado, fevereiro 02, 2008

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.



Fernando Pessoa

quinta-feira, janeiro 31, 2008

CARNAVAL


Ela passou na minha vida vazia

de boémio e sentimental

como passa num ato de tristeza

o relampago de alegria do carnaval...



Seus braços me envolveramcomo serpentinas frágeis de papel

e se romperam como as serpentinas

que se arrrebentam quando o vento sopra

e se soltam no céu...



Ela passou na minha vida, assim

tal como passa na monotonia de uma existência banal

a furtiva beleza e a loucura de um dia de carnaval...



Nossa história, - o romance desse dia

sem ódio, sem despeito, sem rancor,

sem ciúme, nem podemos lembrar,

teve o destino irreal de toda a fantasia

e a existência de um jato de lança-perfume

atravessando no ar...



O nome dela, não sei, ela não sabe o meu

- que importa? não faz mal

não fossemos nós dois apenas fantasias

não fosse a nossa história apenas carnaval!...



( Crônicas de JG de Araujo Jorge extraído do livro" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

domingo, janeiro 27, 2008

POESIA


Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.


Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...


Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...


Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Florbela Espanca

segunda-feira, janeiro 14, 2008

POESIA

A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua.

A nossa casa é onde a neve aquece.
A nossa festa onde o luar acaba.
Cada verso em nós próprios apodrece,
cada jardim nos fecha a sua entrada.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, janeiro 10, 2008

E ALEGRE SE FEZ TRISTE



Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem do teu rosto
E alegre se fez triste como se
Chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
Meu nome no teu nome. E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde um automóvel se afastava.
E viu que a Pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.
Manuel Alegre
Foto:Leonor

domingo, janeiro 06, 2008

GOTAS




Na ponta de uma folha há uma gota indecisa

vai crescendo, redonda, pequenina

límpida e cristalina

como o esquife de um raio de luz...


De repente

à aragem ténue que passou

tremulou,

caíu...

E a gota pequenina sobre a terra fofa

desapareceu,

e o esquife de cristal partiu-se, e pelo espaço

livre, o raio de luz ressuscitou...

fugiu...


Eu conheço outra gota parecida:

- a vida...


J.G.Araújo Jorge

quinta-feira, janeiro 03, 2008

AMOR AMADO

Assim como os poentes
São rubros e as rosas,
Tão vivo é o meu amor por ti.
Com essa força atravesso
Todas as tempestades
E descubro em cada momento
A fonte da alegria.
No silêncio repito
O teu nome como um bálsamo
E sei que tu o meu repetes
como um apelo.
E o apelo não é vão
Pois com ele me dás as estradas
E os atalhos para chegar a ti.
Ao teu encontro vou
Com as rosas de Maio
Com as cerejas de Junho
Com as uvas de Setembro
E cada mês me dá para te levara sua novidade
Pois o amor faz novas todas as coisas.
Quando te não vejo vejo-te em todo o lado
E oiço-te em todas as vozes
Tu que és a única voz.
Em ti me refaço e me transformo
E fluo para ti como um grande rio
Na certeza de ti, que és o meu (a)mar.



Maria Teresa Dias Furtado

sábado, dezembro 29, 2007

NÃO GOSTO DO PAI NATAL


Não gosto do Pai Natal
Não gosto do Pai Natal
porque a mim já não me ilude:
todas as prendas que traz
dão-me cabo da saúde.

Traz no saco, que carrega,
cada vez mais sofrimento
e deixa-me logo «à pega»
baixando-me o vencimento.

Com discursatas perversas,
mil ilusões repartidas
enche o saco de promessas
que nunca serão cumpridas.

Eu não quero dizer mal
mas temos gostos opostos:
peço prendas plo Natal
e ele dá-me mais impostos.

E mal entra o Ano Novo
logo me cheira e pressinto
que eu, que pertenço ao Povo,
vou ter de apertar o cinto.

Sobe a água, sobe a luz,
e os aumentos são bem fortes
e, para aumentar a cruz
sobem também os transportes.

É pior de cada vez
que olho esse velho gaiteiro:
Já sei que vai sobrar mês
quando acabar o dinheiro.

No País em que vivemos
(somos quase 10 milhões)
Ali-Babás... poucos temos,
mas temos muitos ladrões.

Por isso é que não me ilude
este velhote atrevido:
Pai Natal é Robin Hood,
mas Robin Hood ... invertido.


FERNANDO PEIXOTO

segunda-feira, dezembro 17, 2007

POESIA


Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nosssa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça, é tudo tão verdade!





(J. Almada Negreiros, in "Mãe")

sexta-feira, dezembro 14, 2007

SAUDADE

Saudade é solidão acompanhada
é quando o amor ainda não foi embora,
mas a amada já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudade,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.



(Pablo Neruda)

segunda-feira, dezembro 10, 2007

TROCANDO OLHARES


Se as tuas mãos divinas folhearem
As páginas de luto uma por uma
Deste meu livro humilde; se poisarem
Esses teus claros olhos como espuma

Nos meus versos d’amor, se docemente
Tua boca os beijar, lendo-os, um dia;
Se o teu sorrir pairar suavemente
Nessas palavras minhas d’agonia,

Repara e vê! Sob essas mãos benditas,
Sob esses olhos teus, sob essa boca,
Hão de pairar carícias infinitas!

Eu atirei minh’alma como um rito
Às trevas desse livro, assim, ó louca!
A noite atira sóis ao infinito!..




Florbela Espanca - Trocando olhares

sábado, dezembro 08, 2007

SAUDADE


"Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade de um filho que estuda fora.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.


Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam- se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.


Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada;
se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial;
se ela aprendeu a estacionar entre dois carros;
se ele continua preferindo Malzebier;
se ela continua preferindo suco;
se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados;
se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor;s
e ele continua cantando tão bem;
se ela continua detestando o MC Donald's;
se ele continua amando;
se ela continua a chorar até nas comédias.


Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos;
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento;
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música;
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler..."


Miguel Falabella


Fabuloso! Dedico a todos os meus amigos de quem tenho saudade.

SIMONE DE OLIVEIRA





Vi Simone de Oliveira agora, no programa RTP Memória. Sempre tive por ela grande admiração. Aqui fica a DESFOLHADA para recordar!
(desligue a música do blogue)

terça-feira, dezembro 04, 2007

PARA ALÉM DO TEMPO


Esse amor sem fim, onde andará?
Que eu busco tanto e nunca está
E não me sai do pensamento
Sempre, sempre longe!

Esse amor tão lindo que se esconde?
Nos confins do não sei onde.
Vive em mim além do tempo.
Longe, longe, onde?

Por que não me surges nessa hora?
Como um sol?
Como o sol no mar,
Quando vem a aurora.

Esse amor que o amor me prometeu,
E que até hoje não me deu!
Por que não está ao lado meu?

Esse amor sem fim, onde andará?
Esse amor, meu amor,
Onde andará?

(Vinicius de Moraes)









domingo, dezembro 02, 2007

NÃO CONSTA NOS DICIONÁRIOS




ABANDONO
Quando a jangada parte e você fica.


ADEUS
O tipo de tchau mais triste que existe.


ADOLESCENTE
Toda criatura que tem fogos de artifício dentro dela.


ARTISTA
Espécie de gente que nunca deixará de ser criança.


AUSÊNCIA
Uma falta que fica ali, sempre presente.


FOTOGRAFIA
Um pedaço de papel que guarda um pedaço de vida nele.


FILHO
Um serzinho adorável e todo seu, que um dia cresce e passa a ser todo dele.


GELO
Aquilo que a gente sente na espinha quando o amor diz que vai embora.


LEALDADE
Qualidade de cachorro que pouquíssimas pessoas têm.


LÁGRIMA
Sumo que sai dos olhos quando se espreme o coração.


OUSADIA
Quando o Coração diz para a
Coragem:
Vá!
E a Coragem vai mesmo.



Email recebido dum amigo

quinta-feira, novembro 29, 2007

TEU RISO

Leonardo da Vinci


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar,
mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu risos
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul,
a rosada minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.



Pablo Neruda

quarta-feira, novembro 21, 2007

MARIA DA CONCEIÇÃO

Maria da Conceição
Vi-te ontem na procissão
E duvidei do que via...
Pois quando por ti passei
Olhei em volta e reparei
que toda a gente se ria... de ti!
Sim de ti cachopa.
Seja embora a tua boca
Vermelha como a romã
Embora a face trigueira
Tenha um rosado à maneira
De saborosa maçã
Embora o corpo delgado
Lembre um lírio delicado
E tenhas um lindo olhar
Eu juro que foi de ti
Que todos riram e eu ri
Quando te vimos passar.
Maria da conceição
Ou tu perdeste a razão
Ou então foi bruxaria.
Um chapéu nessa cabeça
Mas tu queres que eu endoideça
Oh minha pobre Maria da Conceição
Mas que horror!...E dize cá por favor.
Quem te vestiu esse fato
Que o corpo te escangalhou
E as ancas te deformou
Dando-te um vago ar de pato marreco?
Ai não Maria
Decerto ninguém diria
Vendo-te na procissão
Que tu és certa pequena
De linda cara morena
Maria da Conceião
Teu corpo só bem se ajeita
À longa saia bem feita
Que às formas te dá esbelteza
E na cabeça formosa
Em vez dum chapéu com rosa
põe chita bem portuguesa
Desce dos saltos donzela
E calça a tua chinela
Que tanto te alinda o pé
A gente deve na vida
Não andar nunca iludida
E ser apenas quem é
Maria da Conceição
Sai-me já da procissão
Pois até nosso senhor
Se te vê dessa maneira
Sendo embora de madeira
Pode fugir do andor
Calça a chinelinha,calça
Põe o lenço de Alcobaça
E a saia de flanela
Teu lindo chaile de tricana
Que tu és ribatejana
Que tu Maria és aquela
Nascida nesta paisagem
Criada com esta aragem
Que torna a mulher formosa
E em paisagem bravia
Nunca pode ir bem Maria
Esse chapéu, essa rosa
Volta depois sem vaidade
Eu amo a simplicidade
Gosto de ti sem mentira
Sem poses sem presunção
Maria da Conceição
De Vila Franca de Xira.


Alice Ogando

segunda-feira, novembro 19, 2007

O ÚNICO DEFEITO DAS MULHERES...


Quando Deus fez a mulher, já estava a trabalhar há seis dias consecutivos.

Apareceu um anjo que lhe perguntou: "Deus, porque estás a perder tanto tempo com esta criação?"

Ao que Deus respondeu: "Já viste a minha lista de especificações para este projecto? Ela tem que ser completamente lavável, mas sem ser de plástico, tem mais de 200 partes móveis, todas substituíveis, e é capaz de sobreviver à base de coca-cola light e restos de comida, tem um colo capaz de segurar em quatro crianças ao mesmo tempo, tem um beijo capaz de curar qualquer coisa desde um arranhão no joelho a um coração ferido e faz isto tudo apenas com duas mãos."

O anjo ficou estupefacto com estas especificações. "Só duas mãos!?
Impossível! E esse é apenas o modelo normal? É muito trabalho só para um dia. É melhor acabares só amanhã."

"Nem pensar", protestou Deus. "Estou quase a acabar esta criação que me é tão querida. Ela já é capaz de se curar a si própria quando fica doente. E consegue trabalhar 18 horas por dia."

O anjo aproximou-se e tocou na mulher. "Mas fizeste-a tão macia e delicada, meu Deus".

"Sim, mas também pode ser muito resistente. Nem fazes ideia o que ela pode fazer e aguentar."

"E ela vai ser capaz de pensar?" perguntou o anjo. "Não só é capaz de pensar como é capaz de negociar e convencer"

O anjo então reparou num pormenor e tocou na cara da mulher.

"Ups, parece que tens uma fuga neste modelo. Eu disse-te que estavas a tentar fazer demais numa criatura só."

"Isso não é uma fuga, é uma lágrima." "E para que é que isso serve?" perguntou o anjo. "A lágrima é o seu modo de exprimir alegria, pena, dor, desilusão, amor, solidão, luto e orgulho."

O anjo estava impressionado."És um génio, Deus. Pensaste em tudo."

E de facto as mulheres são verdadeiramente espantosas. Têm capacidades que surpreendem os homens. Carregam fardos e dificuldades, mas mantendo um clima de felicidade, amor e alegria. Sorriem quando querem gritar.
Cantam quando querem chorar. Choram quando estão felizes e riem quando estão nervosas.
Lutam por aquilo em que acreditam e não aguentam injustiças. Não aceitam um "não" quando acreditam que existe uma solução melhor.

Prescindem de tudo para dar à família. Vão com um amigo assustado ao médico. Amam incondicionalmente. Choram quando os seus filhos são os melhores e aplaudem quando um amigo ganha um prémio. Ficam radiantes quando nasce um bébé ou quando alguém se casa. Ficam devastadas com a morte de alguém querido, mas mantêm a força além de todos os limites.

Sabem que um abraço e um beijo podem curar qualquer desgosto. Existem mulheres de todos os formatos, tamanhos e cores. Elas conduzem, voam, andam e correm ou mandam e-mails só para mostrar que se preocupam contigo. O coração de uma mulher mantem este mundo a andar. Elas trazem alegria, esperança e amor. Dão apoio moral à sua família e amigos.

As mulheres tem coisas vitais a dizer e tudo para dar.



NO ENTANTO, SE EXISTE UM DEFEITO NAS MULHERES É QUE ELAS SE ESQUECEM CONSTANTEMENTE DO SEU VALOR.


(Anónimo)

domingo, novembro 04, 2007

ESCADA SEM CORRIMÃO


É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida,
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.


David Mourão Ferreira

quarta-feira, outubro 24, 2007

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM




Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto,

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas, inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído,

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.





Alexandre O'Neill

terça-feira, outubro 23, 2007

FADO PORTUGUÊS

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.



José Régio

sexta-feira, outubro 19, 2007

EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados
que eu ando a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento num corpo
que já não é seu num rio
que desapareceu onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco .




Mário Cesariny "(1923-2006)

quarta-feira, outubro 17, 2007

HOJE DEITEI-ME AO LADO DA MINHA SOLIDÃO





Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.




Eugénio de Andrade


terça-feira, outubro 16, 2007

PARA TODAS AS MULHERES DO MUNDO





Alma de mulher
de
Alexandre Araújo


Nada mais contraditório do que "ser mulher"...
Mulher que pensa com o coração,
age pela emoção e vence pelo amor.
Que vive milhões de emoções num só dia
e transmite cada uma delas, num único olhar.
Que cobra de si a perfeição
e vive arrumando desculpas
para os erros, daqueles a quem ama.
Que hospeda no ventre outras almas,
dá a luz e depois fica cega,
diante da beleza dos filhos que gerou.
Que dá as asas, ensina a voar
mas não quer ver partir os pássaros,
mesmo sabendo que eles
não lhe pertencem.
Que se enfeita toda e perfuma o leito,
ainda que seu amor nem perceba mais tais detalhes.
Que como uma feiticeira transforma em luz e sorriso
as dores que sente na alma,
só para ninguém notar.
E ainda tem que ser forte,
para dar os ombros para quem neles precise chorar.
Feliz do homem que por um dia souber
entender a alma da mulher!

sábado, outubro 13, 2007

TÉDIO


Vontade preguiçosa de apanhar meus nervos
e fazer uma rede para me deitar...
e fechar os meus olhos, como que cansado
de olhar...
e dormir, mas dormir esse sono das pedras
que não podem sonhar...
ser folha, folha morta, caindo
embalada pelo ar...
barco solto, sem leme, sem velas, sem nada
ao sabor inconstante do mar
a boiar...
Vontade preguiçosa de encostar a vida
num canto para descansar...
E soltar-me em mim mesmo num canto
num canto, para descansar...
E soltar-me em mim mesmo, e soltar-me e caír
e deixar-me ficar,
sem ter vontade ao menos para bocejar...
Ah!... Vontade preguiçosa de não terminar
estes versos morrendo em ar... em ar... em ar.



J.G.Araújo Jorge

terça-feira, outubro 09, 2007

FOLHAS DE ROSA


Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol
Eu vou falar com elas em segredo ...
E falo-lhes d'amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente ...
Pelo copinho de cristal e pata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que triste me deslumbra e m'embriaga
O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,
E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...
Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mal fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia....





Florbela Espanca

sábado, outubro 06, 2007

MAR


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz.
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
seres um milagre criado só para mim.

Meio-dia.
Um canto da praia
sem ninguém.


Livre e verde a água ondula.
Graça que não modula, o sonho de ninguém.

Casa branca em frente ao mar
enorme, com o teu jardim de areia
e flores marinhas.
E o teu silêncio intacto
em quem dorme o milagre das coisas
que eram minhas.

Não há fantasmas nem almas,
e o mar imenso, solitário e antigo,
parece bater palmas.

Dia do mar no ar, dia alto.
Onde os meus gestos são gaivotas
que se perdem, rolando sobre as ondas,
sobre as nuvens.

Aqui nesta praia onde não há nenhum
vestígio de impureza,
aqui onde há somente ondas
tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
aqui o tempo apaixonadamente
encontra a própria liberdade.

Há muito que deixei aquela praia
de grandes areais e grandes vagas.
Mas sou eu ainda quem na brisa respira.
E é por mim que espera cintilando
a maré que vasa.

De todos os cantos do mundo,
amo com um amor mais forte e mais profundo,
aquela praia extasiada e nua
onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Mostrai-me as anemonas,
as medusas e os corais do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.

A minha pátria é onde o vento passa,
a minha amada é onde os roseirais dão flor,
o meu desejo é o rastro que fica das aves,
e nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Reino de medusas e água lisa,
reino de silêncio luz e pedra.
Habitação das formas espantosas,
coluna de sal e círculo de luz.
Medida da Balança misteriosa.

Mar, Metade da minha alma
é feita de maresia.

Luz inunda a planície do mar,
mas ninguém cria gestos luminosos.
Sem que ninguém forme gestos na sua luz.

As ondas quebravam uma à uma.
Eu estava só com a areia
e com a espuma do mar
que cantava só p’ra mim.




Sophia de M. Breynner

domingo, setembro 30, 2007

LEVA-ME NAS ASAS DA DANÇA...


(p.f. desligue primeiro o som do blog)

quinta-feira, setembro 27, 2007

PARA TI MINHA MÃE - OBRIGADO



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesano meio de um laranjal...
Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves.



Eugénio de Andrade

domingo, setembro 23, 2007

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Saber esperar é uma grande virtude...

SOL NULO DOS DIAS VÃOS

Sol nulo dos dias vãos
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
Fernando Pessoa


quarta-feira, setembro 19, 2007

POESIA

De amor nada mais me resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto;
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

in, «Poesia Completa», D. Quixote, Lisboa, 1999

Natália Correia