terça-feira, janeiro 23, 2007

J'AIME





Liguem o som e sigam a letra desta bonita canção de Adamo


J'aime quand le vent nous taquine
Quand il joue dans tes cheveux
Quand tu te fais ballerine
Pour le suivre à pas gracieux
J'aime quand tu reviens ravie
Pour te jeter à mon cou
Quand tu te fais petite fille
Pour t'asseoir sur mes genoux
J'aime le calme crépuscule
Quand il s'installe à pas de loup
Mais j'aime a espéré crédule
Qu'il s'embrasserait pour nous
J'aime ta main qui me rassure
Quand je me perds dans le noir
Et ta voix elle murmure
De la source de l'espoir
J'aime qu'en tes yeux couleur de brume
Me font un manteau de douceur
Et comme sur un coussin de plumes
Mon front se pose sur ton coeur


Uma canção dos velhos tempos e que, raramente ,se ouve !


sábado, janeiro 20, 2007

BONECA


Se eu vos disser que sou uma boneca, vocês pensam logo que eu sou bonita. "É uma boneca", não é isso que as pessoas costumam dizer? Preparem-se para uma surpresa: não sou bonita. Mesmo nada bonita. E ainda não fui capaz de descobrir por que razão... Terá havido algum erro na linha de produção? Será que faço parte de um projecto que afinal não vingou? Não faço ideia. Mas tenho a certeza absoluta de que sou única.

Quando estava na fábrica, esperando para ser enviada sabia lá para onde, olhava para as minhas irmãs, todas elas de longos cabelos loiros, de grandes olhos verdes, e julgava que era também assim. Confesso que foi um choque quando descobri que o meu cabelo era loiro, sim, mas não era macio, era rebelde e sem vida, e na verdade os meus olhos eram verdes, mas tão míopes que era obrigada a escondê-los atrás de grossas lentes... a minha pele, ao invés de saudavelmente fresca, estava coberta de borbulhas. Se a isto acrescentarem que os meus dentes mais pareciam os de um castor, bem... não é uma imagem muito lisonjeira, pois não? Era difícil viver com aquela realidade, principalmente na actual sociedade em que a aparência parece ter um papel tão importante e é quase obrigatório para qualquer mulher ter um aspecto saudável, belo, com uma bonita pele, o cabelo bem arranjado e dando a impressão de ter passado as últimas cinco horas a fazer ginástica!

Ali estava eu pois na loja, sentindo-me deslocada e todos os dias esperando que alguma menina apontasse para mim e dissesse: "Mamã, quero aquela..."Coisa que, infelizmente, não aconteceu. Eu era optimista por natureza mas à medida que o tempo passava tornava-me cada vez mais triste e sem esperança. Ninguém me compraria! Para que é que alguém quereria uma boneca feia? Dei voltas e voltas ao assunto na minha cabeça e concluí que a única solução era tornar-me bonita, não importava qual fosse o preço a pagar!Depois de uns quantos telefonemas, tive que admitir a verdade: o preço a pagar importava! Se eu queria fazer uma operação plástica ao nariz, um tratamento à pele num instituto de beleza e ficar com o cabelo brilhante e suave como a seda era melhor que pensasse em poupar bastante. Não fazia ideia de quanto dinheiro era necessário só para manter uma aparência decente... admito que foi uma enorme desilusão, mas consegui ultrapassá-la de uma forma inesperada: a fim de encher o tempo dediquei-me à leitura e depressa descobri que, em vez de mero passatempo, isso se estava a transformar numa verdadeira paixão. Em pouco tempo consegui ler todos os livros que havias na loja. E suspirava por mais. De forma que me tornei membro da Biblioteca local e pude ler tanto quanto queria: Kafka, Beauvoir, Sartre, Valtari, Remarque, Hemingway, Gorki, Tolstoi, Dostoievski, Kerouac... passava a maior parte do dia a dormir para poder estar em paz e silêncio enquanto trabalhava durante a noite, visto que eu já não me limitava a ler, estava a tirar um curso por correspondência. Queria ser economista. Já não me importava se alguém me iria comprar ou não. De facto, os meus planos seriam alterados se alguém pensasse em adquirir-me, agora que estava quase a completar os meus estudos...

Parece que a vida é feita de surpresas: fui inesperadamente comprada por uma jovem mulher que sem dúvida queria outra coisa mas pensou que eu talvez servisse. Comprou-me a fim de que a sua filha me oferecesse de presente a uma amiguinha. Fui embrulhada em papel colorido e levada para um lugar que não me pareceu muito longe da loja. Não pude ver nada, evidentemente, apenas ouvi o motor de um carro e, depois de dias de uma total escuridão fui subitamente rodeada de luz, risos e pessoas. Principalmente crianças.

Era uma bela festa com imensas coisas boas para comer, pratos de papel engraçados, chapéus de papel, refrigerantes, cachorros quentes, sanduíches cortadas em triângulo, bombons e um enorme bolo de aniversário com duas rosas de massapão e uma inscrição doce que dizia:

"Parabéns!"Uma rapariguinha de cabelo escuro e intensos olhos azuis agarrava-me com força. Era ela portanto a minha dona. Óptimo. Gostei dela no mesmo instante em que a vi. Pensei que nos tornaríamos boas amigas. Pela parte que me cabia, eu estava disposta a dar o meu melhor. Tudo estava a decorrer bem até que um dos convidados, uma loura magrinha, disse: "Mas que espécie de boneca é essa? É feia, feia, feia!"Todas as outras crianças romperam de imediato num coro acusatório: "Fei-a! Fei-a! Fei-a!"
-Consegues imaginar coisa mais horrível? Onde será que ela a arranjou, num caixote do lixo?-Bem, tenho que admitir que tem um certo charme...-Charme?! Que é que queres dizer com isso, "charme"? É algum novo sinónimo de feio?-Disparates! O que é a beleza, afinal de contas? É acima de tudo uma questão de moda, trata-se de dizer: "olha, isto está na moda, isto é bonito"-Deve estar a brincar!-Não, não estou!- ouvi o homem replicar. Ele era o pai da rapariguinha do aniversário. Esta conversa aconteceu alguns dias depois da festa. Eu já estava acostumada à linda casa que era agora o meu lar e percorria-a à vontade durante a noite. Deduzi que o homem (que era um artista plástico) tinha de ganhar bom dinheiro na sua profissão para poder ter uma casa como aquela. Tomou de novo a palavra e eu ouvi-o com atenção:-Se amanhã eu afirmasse : "Olhem, isto é Belo", todos acreditariam!-Bem, eu não!-Espera e verás - disse o artista, aspirando o fumo do seu charuto - Espera e verás...


No dia seguinte acordaram-me bastante cedo. Alguém me pôs um vestido de veludo preto, sapatos pontiagudos cor de prata e uma rapariga atraente fez-me um penteado extravagante. Sentaram-me numa cadeira de madeira que mais parecia um trono, luzes fortes atingiram-me no rosto e encandearam-me, o calor do estúdio quase me fez desmaiar.Uma semana mais tarde eu estava na capa das mais importantes revistas de moda do mundo. O telefone não parava de tocar convidando-me para comparecer em programas de televisão, desfiles de moda, entrevistas na rádio... pouco depois fui considerada a boneca do ano. Passaram-se alguns meses e fui eleita a boneca da década. Estilistas mundialmente famosos imploravam o privilégio de desenhar roupas para mim. Empresas de cosméticos ofereciam-me pequenas fortunas para que eu publicitasse os seus produtos.Eu anunciava perfumes franceses, roupas desportivas, carros, sabonetes, cremes... Cada vez que eu saía havia fotógrafos desejosos das minhas fotografias e pessoas desejosas do meu autógrafo. Havia até rumores de uma possível história de amor entre mim e um belo e famoso actor de Hollywood...Quanto a mim... bem, depois de um certo esforço consegui terminar o curso. Quando hoje em dia me vejo ao espelho, faço-o sem sentimentos desagradáveis. Vejo as lentes grossas (nunca me adaptei verdadeiramente às lentes de contacto), a pele cheia de imperfeições, o cabelo seco e, apesar da opinião do mundo inteiro, continuo a ver-me como uma boneca feia. Mas há duas grandes diferenças em relação à forma como eu me via antes: aprendi a aceitar-me tal como sou. E, graças aos meus estudos, consegui investir o dinheiro da melhor forma.

A menininha que ainda é a minha dona casou o ano passado e, no dia em que ela tiver uma filha, eu não terei ciúmes visto que, muito provavelmente eu tornar-me-ei na sua melhor amiga, na qual ela pode confiar e contar os seus mais íntimos segredos. E também assumirei com muito prazer o papel de baby sitter quando ela quiser sair com o marido.Por tudo isto assumo que sou uma boneca feliz.

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Depois de uma infância sem incidentes de maior (exceptuando o rapto de um gato siamês) frequentou o Liceu Francês e posteriormente andou pela Faculdade de Direito. Viveu no estrangeiro durante vários anos: no norte europeu (Suécia, Finlândia), em Espanha e ainda na América do Sul. Gosta de ler (T. Pratchett, Hemingway, Sartre, Pessoa e a lista seria longa) e, sobretudo, de escrever. Mesmo que seja para a gaveta... Contudo, já publicou umas coisas, nomeadamente no fanzine Sloboda, nas Selecções BD, na Rua Sésamo... e tem umas historietas guardadas, na expectativa/esperança de um dia arranjar algum editor que...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

DIA MUNDIAL DA PAZ



Se há tanta Paz


Se há tanta paz no azul que o céu abriga
e há tanto azul, que tanto bem nos faz;
se há tanto azul e há tanto céu, me diga:
por que é que o Homem não encontra a Paz?


Se há tanta paz no verde mar da onda,
que faz-se em verde e em branco se desfaz,
e há tantas ondas pelo mar, responda:
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz no olor das multicores
flores - orquídeas, rosas, manacás...
Se há paz em cada flor e há tantas flores,
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz nos cânticos suaves
que entoam na alvorada os sabiás...
Se há paz num canto de ave e há tantas aves,
por que é que o Homem não encontra a Paz?
Se há tanta paz na brisa que desliza
sobre as folhagens, tímida e fugaz...
Se há tanta paz na brisa e há tanta brisa,
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz nas expressões tão mansas
que, ao vir ao mundo, uma criança traz,
e a cada dia existem mais crianças,
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz nos corações com Fé-
que atrai o Bem e afasta as coisas más
-então oremos todos, já, de pé.
para que o Homem encontre um dia a Paz!



Autora - Luna Fernandes

domingo, dezembro 10, 2006

FELIZ NATAL

Presépio De Lata
Rui Veloso
Composição: Carlos Tê / Rui Veloso


Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz branca na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells.

Como era bom se todos tivessem Natal!

quinta-feira, dezembro 07, 2006

VINTE ANOS DEPOIS

Depois de tanto tempo decorrido,
Eis que te encontro novamente agora,
Face a face... alquebrado, envelhecido,
Tão diferente do que foste outrora!

Percebo, nos teus olhos contristados,
Que em mim também notaste alguma mudança.
É natural, vinte anos são passados,
E o tempo, no seu giro, não descansa!

Tão diferente já do que fomos!E em vão
Tentamos recompor os traços do passado.
Buscas em meu olhar um antigo clarão
E só vês um cristal sereno, desmaiado...

E em nossos olhos vê-se agora, refletida,
Como num claro espelho, a imagem do presente,
A dura realidade, a amarga lei da Vida,
E então, sem resistir, choramos tristemente,

Lágrimas não por mim nem por ti, na verdade,
Nem mesmo pelo amor que agora pouco importa!
Se choramos assim, choramos de saudade
Da nossa própria mocidade morta!



Maria José Aranha Rezende

domingo, dezembro 03, 2006

UMA VIDA - QUATRO ESTAÇÕES

Uma vida tem quatro estações:

  1. Na Primavera nascemos
  2. No Verão amadurecemos
  3. No Outono murchamos
  4. No Inverno morremos.

sábado, agosto 20, 2005

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é presiso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como fôr. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e a sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas na florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor a êsmo;depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, môlhos,strogonoffs - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?.

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.

segunda-feira, agosto 15, 2005

O PARTO SEM DOR


Pedro Monjardino, Cesina Bermudes e Seabra Dinis esforçados pioneiros do "parto preparado" em Portugal

CESINA BERMUDES

Dra. Cesina Bermudes. Tive o prazer e o privilégio de conhecer esta grande mulher. Pequenina de estatura mas com um coração sem fronteiras. Foi ela que me acompanhou no decurso da minha gravidez e foi ela quem assistiu ao parto.

Ainda me recordo da frase que ela dizia sempre que lhe aparecia uma mulher grávida: Gravidez não é doença! Depois, com a maior alegria, dava-nos conselhos e vivia cada situação como se as crianças fossem dela. Na realidade, todos ficaram na história como "os bébés Cesina",

Costumava fazer uma reunião de grávidas em casa dela para nos mostrar com fotos e desenhos como o nosso organismo é e como funciona.

Quando surgia algum parto mais difícil e demorado não saía do lado das grávidas chegando a dormir no chão ou em alguma cama desocupada na ocasião. Quando nos medicava, para começarmos logo a tomar o medicamento "emprestava-nos" uns tantos comprimidos que depois lhe devolviamos. Tudo o que sobrasse era-lhe entregue e destinava-se às menos favorecidas de quem ela cuidava com toda o carinho. Era uma mulher extraordinária, com uma energia exuberante. Fez todos os desportos, todas as viagens. Mas a principal aventura foi a introdução em Portugal do parto sem dor.

Nasceu a 20 de Maio de 1908, em Lisboa na freguesia dos Anjos e lembrava-se dos tempos da I Grande Guerra, "da falta de géneros e das bichas que havia às portas das mercearias e de todos os sítios que vendiam géneros alimentícios".

Cesina Bermudes acreditava na reencarnação. "Das minhas anteriores reencarnações não me lembro de nada. Mas nós temos tanta coisa que fazer neste mundo que não há possibilidade de o conseguir numa única vida. É muito mais inteligente que tenhamos vidas sucessivas para ir aprendendo a evolução, porque não há só a evolução física que o Darwin pôs em evidência. Há também uma evolução psíquica, dos sentimentos, dos pensamentos, das intuições, das criações. Como é possível chegar a criar uma sinfonia, a criar a ideia de uma catedral se as pessoas não tiverem já vindo cá várias vezes a este mundo para se treinarem na ideia da arte ou de qualquer outra coisa? Como é possível ser um místico, como um S.João da Cruz, ou um S. Francisco de Assis, se as pessoas não tiverem vindo aprender a ideia da fraternidade?"

Em 1954 vai a Paris estudar as técnicas do parto sem dor. Segundo ela era" absolutamente inconcebível que um acto perfeitamente fisiológico e natural fosse doloroso na mulher e fosse natural nas outras fêmeas mamíferas. É uma questão psicológica, mas para chegar a esta conclusão foram precisos uma quantidade de sábios. Só ao fim de muitos e muitos anos de medicina é que foi possível descobrir a importância do psicossomático no comportamento humano.".

Quando lhe perguntaram em que ser gostaria de reincarnar na próxima geração, respondeu:
"Se calhar voltava a ser médica. Em todo o caso será uma profissão liberal, porque é aquela onde se pode fazer o que se entende dever fazer. Precisava de uma reencarnação para me formar musicalmente. Nesta reencarnação desenvolvi, principalmente a capacidade de investigação científica. Sob o ponto de vista literário e desportivo também foi útil. Agora do ponto de vista musical não serviu para nada.".

Muito havia para dizer acerca desta mulher franzina, com passo apressado e o penteado de sempre: uma trança a emoldurar-lhe o rosto miúdo e o olhar vivíssimo.

Esta é a homenagem singela duma mulher que jamais a esquecerá.

Soube hoje que Cesina Bermudes partiu há quatro anos. Mas Cesina Bermudes continua entre nós. Bem-haja!

Leonor Costa

domingo, agosto 07, 2005

VAI AONDE TE LEVA O CORAÇÃO


"Antes de mais, importa dizer que estamos perante um romance já célebre e celebrado pelos múltiplos êxitos, desde o facto de se ter convertido no livro mais vendido em Itália nas últimas décadas até às numerosas traduções no mundo inteiro.

Livro-sensação, livro de descoberta ou de redescoberta e por isso mesmo livro não alheio à diversidade de reacções.

Através de um registo em que três gerações de mulheres dialogam, numa voz que reconta as suas vidas, Susanna Tamaro serve-se dessa estrutura narrativa para confrontar os diferentes tempos vividos e reavaliar este ciclo geracional. A leitura deste livro é enleante, quase hipnótica, comovente, o que justifica talvez o seu imenso sucesso internacional. De resto, a circulação do livro a esta escala surpreendente deve-se a um fenómeno de passagem de testemunho de leitor para leitor traduzido numa verdadeira consagração pública do romance de Susanna Tamaro que o tem mantido ininterruptamente no topo das preferências de leitura."
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Não encontrei melhor maneira de passar o meu testemunho do que citar algumas passagens deste livro que considero maravilhoso:

" A ideia do destino é algo que surge com a idade. Quando se tem os anos que tu tens, geralmente não se pensa muito nisso, tudo o que aontece é como se fosse fruto da nossa vontade. Sentimo-nos como um operário que, pedra sobre pedra, vai construindo à sua frente o caminho que deverá percorrer. Só muito depois é que se repara que o caminho já está construído, que alguém o traçou para nós, e que só nos resta seguir em frente. É uma descoberta que costuma fazer-se por volta dos quarenta anos, então começa-se a perceber que as coisas não dependem só de nós. É um momento perigoso, durante o qual não é raro escorregar-se para um fatalismo claustrofóbico. Para veres o destino em toda a sua realidade, tens de deixar passar mais alguns anos. Por volta dos sessenta, quando o caminho atrás de ti é mais comprido do que o que tens à tua frente, vês uma coisa que nunca tinhas visto antes: o caminho que percorreste não era direito mas cheio de encruzilhadas, a cada passo havia uma seta que apontava para uma direcção diferente; dali partia um atalho, de acolá um carreiro cheio de ervas que se perdia nos bosques. Alguns desse desvios fizeste-os sem te aperceberes, outros nem sequer os viste; tu não sabes se os que não fizeste te levariam a um lugar melhor ou pior; não sabes, mas sentes pena. Podias fazer uma coisa e não fizeste, voltaste para trás em vez de seguir em frente. O jogo da glória, lembras-te? A vida vai avançando mais ou menos da mesma forma.
Ao longo das encruzilhadas do teu caminho encontras outras vidas, conhecê-las ou não, vivê-las a fundo ou desperdiçá-las depende da escolha que fazes num segundo; embora o não saibas, entre seguir a direito ou fazer um desvio joga-se muitas vezes a tua existência, a existência de quem está perto de ti.".


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"Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de gual modo, deves estar nas coisas e sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar.".

quinta-feira, agosto 04, 2005

A CEIA DOS CARDEAIS


Peça em um acto, em verso, representada pela primeira vez no antigoTeatro de D. Amélia, em 24 de Março de 1902
Foram tantas as vezes que ouvi minha mãe dizer-me esta passagem da Ceia dos Cardeais, que nunca a esqueci.
CARDEAL GONZAGA, ao descrever aos 84 anos, seu amor aos 14 anos:
Quando lhe perguntaram:
"Em que pensa, cardeal?
Cardeal Gonzaga, como quem acorda, os olhos cheios de brilho, a expressão transfigurada
Em como é diferente o amor em Portugal!
Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento...
É o amor coração, é o amor sentimento.
Uma lágrima... Um beijo... Uns sinos a tocar...
Um parzinho que ajoelha e que se vai casar.
Tão simples tudo! Amor, que de rosas se inflora:
Em sendo triste canta, em sendo alegre chora!
O amor simplicidade, o amor delicadeza...
Ai, como sabe amar a gente portuguesa!
Tecer de sol um beijo e, desde tenra idade,
Ir nesse beijo unindo o amor com a amizade,
Numa ternura casta e numa estima sã,
Sem saber distiguir entre a noiva e a irmã...
Fazer vibrar o amor em cordas misteriosas,
Como se em comunhão se entendessem as rosas,
Como se todo o amor fosse um amor somente...
Ai, como é diferente! Ai, como é diferente!
Pode-se lá viver sem ter amado alguém!
Sem sentir dentro d'alma - ah, podê-la sentir -
Uma saudade em flor, a chorar e a rir!
Se amei! Se amei! - Eu tinha uns quinze anos, apenas.
Ela, treze. Um amor de crianças pequenas,
Pombas brancas revoando ao abrir da manhã...
Era minha priminha. Era quase uma irmã.
Bonita não seria... Ah, não... Talvez não fosse.
Mas que profundo olhar e que expressão tão doce!
Chamava-lhe eu, a rir, a minha mulherzinha...
Nós brincávamos tanto! Eu sentia-a tão minha!
Toda a gente dizia em pleno povoado:
"Não há noiva melhor para o senhor morgado,
Nem em capela antiga há santa mais santinha..."
E eu rezava baixinho: "É minha! É minha! É minha!"
Quanta vez, quanta vez, cansados de brincar,
Ficávamos a olhar um para o outro, a olhar,
Todos cheios de sol, ofegantes ainda...
Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda...
E, numa noite, a minha alma, a minha luz morreu!
Deus, se ma quis tirar, p'ra que foi que ma deu?
Para quê? Para quê?
Ah! Pois Deus não via que eu tinha coração!
Não via! Ah, não via! Não via!
Julgou que de um amor outro amor refloria,,
E matou-me... E matou-me!
Afinal,
Foi esse anjo, ao morrer, que me fez cardeal!
E eu hoje sirvo a Deus - a Deus, que ma levou...
Cardeal Rufo, o De Montmorency, limpando uma lágrima furtiva, enquanto as onze horas soavam no Vaticano:
Foi ele, de nós os três, o único que amou.

sexta-feira, julho 29, 2005

E O DIÁRIO FECHOU-SE...

Em 1 de Agosto de 1944, Anne Frank dizia que lhe chamavam um feixe de contradições e perguntava: " O que é contradição? Como todas as palavras, tem dois sentidos: contradição exterior e contradição interior.
O primeiro sentido é este: não nos conformarmos com a opinião dos outros, querer saber tudo melhor, querer ter a última palavra, enfim: qualidades desagradáveis que já conheces suficientemente. O segundo: qualidades que também tenho mas que ninguém conhece e que são o meu segredo.". E terminou assim: ... "continuo a procurar um meio para vir a ser aquela que gostava de ser, que era capaz de ser, se... sim, se não houvesse mais ninguém no Mundo.".
Dois dias depois, a 4 de Agosto de 1944, o anexo foi assaltado pela polícia.
Anne morreu em Março de 1945 no campo de concentração de Bergen-Belsen, dois meses antes da libertação da Holanda.

quinta-feira, julho 28, 2005

15 DE JULHO DE 1944

........ É por milagre que ainda não renunciei a todas as minhas esperanças, na verdade tão absurdas e irrealizáveis. Mas eu agarro-me a elas, apesar de todos e de tudo, porque tenho fé no que há de bom no homem. Não me é possível construír a vida tomando como base a morte, a miséria e a confusão. Vejo o Mundo transformar-se, pouco a pouco, num deserto; ouço, cada vez mais forte, a trovoada que se aproxima, essa trovoada que nos há-de matar; sinto o sofrimento de milhões de seres e, mesmo assim, quando ergo os olhos para o Céu, penso que, um dia, tudo voltará a ser bom, que a crueldade chegará ao seu fim e que o Mundo virá a conhecer de novo a ordem, a paz, a tranquilidade.

Até lá tenho que manter firme os meus ideais - talvez ainda os possa realizar nos tempos que hão-de vir.


Tua Anne
-Parte final do texto-

O QUARTO DE ANNE FRANK

ANNE FRANK (cont.)

Sexta-feira, 16 de Outubro de 1942



Querida Kitty:


Tenho imenso que fazer. Traduzi um capítulo de La belle Nivernaise. Tirei todos os significados novos. Depois fiz um problema de matemática e ainda estudei três páginas de gramática. Não gosto nada de problemas nem me apetece pegar-lhes. O pai também os acha complicados e, por vezes, resolvo-os melhor eu do que ele, mas, em boa verdade, nem ele nem eu sabemos muito disto e acabamos quase sempre por chamar a Margot para nos dar uma ajuda. Na estenografia sou eu quem vai à frente dos três. Ontem acabei de ler Os Salteadores. É um bom livro, mas não se pode comparar a Joop-ter-Heul. Continuo a dizer que acho a Cissy v. Marxveldt uma escritora brilhante. Os meus filhos hão-de ler os seus livros. O pai deu-me algumas peças de teatro de Korner: O primo de Bremen, A governanta, O dominó verde. Um bom escritor.

A mãe, a Margot e eu voltámos a ser amigas, o que não deixa de ser muito agradável. Ontem a Margot deitou-se ao meu lado na minha cama. Quase não havia lugar para as duas, mas não fazes ideia como foi bom. Ela perguntou-me se podia ler o meu diário. Eu disse:

-Algumas passagens podes.

Perguntei-lhe pelo diário dela. Disse que também mo dava a ler. Depois falámos sobre o futuro e perguntei-lhe o que ela queria ser. Mas não quis dizer, é um segredo. Ouvi vagamente dizer que quer ser professora e suponho que deve ser verdade. Acho que sou curiosa de mais. Hoje de manhã estendi-me sobre a cama do Peter depois de o ter expulsado de lá. Ficou furioso, mas não fiz caso. Acho que podia se mais amável comigo, pois ainda ontem lhe dei uma maçã.

Ontem perguntei à Margot se me achava feia. Ela disse-me que eu tinha um ar patusco e os olhos muito bonitos. Uma resposta um bocado vaga, não te parece?

Até à próxima.

Tua Anne

quarta-feira, julho 27, 2005

ANNE FRANK



De entre os livros por mim já lidos, um dos que mais me agradou foi o Diário de Anne Frank, pela sua simplicidade e realismo.
Anne era filha de negociantes judeus que viviam na Alemanha. Quando Hittler tomou posse do governo, o negócio do pai ficou em má situação e por isso viram-se obrigados a fugir para Amesterdão. Em 1940 os alemães invadiram os Países Baixos e recomeçaram a guerra aos judeus. Dois anos depois, quando Otto Frank recebeu ordem de se apresentar à polícia, conseguiu com a ajuda de amigos cristãos esconder-se com a mulher, as duas filhas e um outro casal, no anexo da casa na Prinsengracht em Amesterdão, onde viveram durante dois anos temendo a todo o momento serem descobertos.
Foi nessa casa que Anne cresceu, sofreu e amou, e também escreveu o seu Diário, obra sublime duma adolescente, transbordando de amor, sofrimento e resignação que, mais tarde, depois da sua morte foi publicado e obteve um sucesso extrordinário.
O esconderijo da família Frank foi descoberto pela Gestapo, e levaram Anne para Bergen-Belsen, o mais cruel de todos os campos de concentração, onde veio a expirar alguns dias antes da libertação
Pobre Anne que tanto sofreu fechada no espaço de poucos metros quadrados, vendo-se imposibilitada de gozar a sua mocidade, sem que um sentimento de revolta se albergasse no seu coração!
A trágica vida desta jovem foi um exemplo para o mundo, o que este não se nega a reconhecer, prestando-lhe a maior homenagem que lhe pode prestar: recordá-la.

segunda-feira, julho 25, 2005

DESIDERATA

Vai serenamente por entre a agitação e a pressa e lembra-te da paz que pode haver no silêncio. Sem seres subserviente, mantém-te tanto quanto possível, em boas relações com todos. Diz a tua verdade calma e claramente e escuta com atenção os outros, mesmo que menos dotados e ignorantes; também eles têm a sua história. Evita as pessoas barulhentas e agressivas; são mortificações para o espírito. Se te comparas com os outros podes tornar-te presunçoso e melancólico porque haverá sempre pessoas superiores e inferiores a ti. Apraz-te com as tuas realizações tanto como com os teus planos. Põe todo o interesse na tua carreira ainda que ela seja humilde; é um bem real nos destinos mutáveis do tempo. Usa de prudência nos teus negócios porque o mundo esta cheio de astúcia; mas que isto não te segue a ponto de não veres virtude onde ela existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e em todo o lado a vida está cheia de heroísmo. Sê fiel a ti mesmo. Sobretudo não simules afeição nem sejas cínico em relação ao amor porque, em face da aridez e do desencanto, ele é perene como a relva. Toma amavelmente o conselho dos mais idosos, renunciando com graciosidade às ideias da juventude. Educa a fortaleza de espírito para que te salvaguarde numa inesperada desdita. Mas não te atormentes com fantasias. Muitos receios surgem da fadiga e da solidão. Para além de uma disciplina salutar, sê gentil contigo mesmo. Tu és um filho do universo e, tal como as árvores e as estrelas, tens direito de o habitar. E quer isto seja ou não claro para ti, sem dúvida que o universo é-te disto revelador. Portanto, vive em paz com Deus seja qual for a ideia que Dele tiveres. E quaisquer que sejam as tuas lutas e aspirações, na ruidosa confusão da vida, conserva-te em paz com a tua alma. Com toda a sua falsidade, escravidão e sonhos desfeitos o mundo é ainda maravilhoso. Sê cauteloso. Luta para seres feliz.


Encontado, em 1692, na Igreja de Saint Paul - Baltimore

domingo, julho 24, 2005

MAGIA


Toda a magia de um pôr-do-sol...