sábado, outubro 06, 2007

MAR


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz.
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
seres um milagre criado só para mim.

Meio-dia.
Um canto da praia
sem ninguém.


Livre e verde a água ondula.
Graça que não modula, o sonho de ninguém.

Casa branca em frente ao mar
enorme, com o teu jardim de areia
e flores marinhas.
E o teu silêncio intacto
em quem dorme o milagre das coisas
que eram minhas.

Não há fantasmas nem almas,
e o mar imenso, solitário e antigo,
parece bater palmas.

Dia do mar no ar, dia alto.
Onde os meus gestos são gaivotas
que se perdem, rolando sobre as ondas,
sobre as nuvens.

Aqui nesta praia onde não há nenhum
vestígio de impureza,
aqui onde há somente ondas
tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
aqui o tempo apaixonadamente
encontra a própria liberdade.

Há muito que deixei aquela praia
de grandes areais e grandes vagas.
Mas sou eu ainda quem na brisa respira.
E é por mim que espera cintilando
a maré que vasa.

De todos os cantos do mundo,
amo com um amor mais forte e mais profundo,
aquela praia extasiada e nua
onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Mostrai-me as anemonas,
as medusas e os corais do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.

A minha pátria é onde o vento passa,
a minha amada é onde os roseirais dão flor,
o meu desejo é o rastro que fica das aves,
e nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Reino de medusas e água lisa,
reino de silêncio luz e pedra.
Habitação das formas espantosas,
coluna de sal e círculo de luz.
Medida da Balança misteriosa.

Mar, Metade da minha alma
é feita de maresia.

Luz inunda a planície do mar,
mas ninguém cria gestos luminosos.
Sem que ninguém forme gestos na sua luz.

As ondas quebravam uma à uma.
Eu estava só com a areia
e com a espuma do mar
que cantava só p’ra mim.




Sophia de M. Breynner

domingo, setembro 30, 2007

LEVA-ME NAS ASAS DA DANÇA...


(p.f. desligue primeiro o som do blog)

quinta-feira, setembro 27, 2007

PARA TI MINHA MÃE - OBRIGADO



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesano meio de um laranjal...
Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves.



Eugénio de Andrade

domingo, setembro 23, 2007

******


Saber esperar é uma grande virtude...

SOL NULO DOS DIAS VÃOS

Sol nulo dos dias vãos
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
Fernando Pessoa


quarta-feira, setembro 19, 2007

POESIA

De amor nada mais me resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto;
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

in, «Poesia Completa», D. Quixote, Lisboa, 1999

Natália Correia

terça-feira, agosto 14, 2007

QUANDO ME AMEI DE VERDADE

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome…Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é…Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de… Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é… Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama… Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é… Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a… Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é…Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é… Saber viver!!!

Quando você se amar de verdade, de certo, abrirá mão de “querer” sempre ter a razão. O amor é troca é aceitação. Desejo que sua vida seja um constante aprendizado.

Charles Chaplin

quinta-feira, agosto 09, 2007

No castelo ponho o cotovelo
Em Alfama descanço o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça
A almofada da cama do Tejo
Com lençois bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem, tão pura
Teus seios sãos as colinas, varina
Pregão que me traz à porta ternura

Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade amor da minha vida

No Terreiro eu passo por ti
Mas na Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que sei inventar
A aguardente de vinho e medronho
Que me faz cantar.

Lisboa do amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade mulher da minha vida


Canta Carlos do Carmo






quinta-feira, agosto 02, 2007

POESIA MATEMÁTICA

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.


Millôr Fernandes

quinta-feira, julho 26, 2007

POQUE HÁ PALAVRAS QUE NOS MARCAM


(Clicar sobre a imagem)

segunda-feira, julho 23, 2007

IDÍLIO



Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,

Colher nos vales lírios e boninas,

E galgamos dum fôlego as colinas

Dos rocios da noite inda orvalhadas;


Ou, vendo o mar das ermas cumeadas

Contemplamos as nuvens vespertinas,

Que parecem fantásticas ruínas

Ao longo, no horizonte, amontoadas:


Quantas vezes, de súbito, emudeces!

Não sei que luz no teu olhar flutua;

Sinto tremer-te a mão e empalideces


O vento e o mar murmuram orações,

E a poesia das coisas se insinua

Lenta e amorosa em nossos corações.





Antero de Quental

domingo, julho 22, 2007

SUAVIDADE

Poisa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tus doce Irmã compadecida.

Hás-de contar-me nessa voz tão querida
A dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás-de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves...

Hão poisar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves...
Florbela Espanca

sexta-feira, julho 20, 2007

ALMA MINHA

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueça daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encortou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te
quão cedo de meus olhos te levou.


Luís de Camões

quarta-feira, julho 18, 2007

SÚPLICA

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga

sábado, julho 14, 2007

MOMENTOS NA VIDA






Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram, para aqueles que se machucam, para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre.



Clarice Lispector

quarta-feira, julho 11, 2007

SONHOS

Todos os sonhos têm o seu preço...

quarta-feira, julho 04, 2007

O ESPLENDOR DE UMA ROSA

Tão simples tudo!
Amor, que de rosas se inflora...

A Ceia dos Cardeais - Júlio Dantas

segunda-feira, julho 02, 2007

UMA LONGA ESPERA


Naquele banco sentávamo-nos os três: tu, eu e o amor. Ali era o nosso paraíso.
Depois, depois tu partiste. Fiquei eu e o amor. Sonhei, sonhei com o teu regresso. A esperança sorria nos meus olhos. O meu coração, em cada batida dizia o teu nome. Depois o amor deixou-me e eu fiquei só. Meus cabelos embranqueceram nessa longa espera e, no meu lugar ficou um punhado de folhas secas. De vez em quando volto para lhes oferecer as minhas lágrimas e, ingenuamente, pensar que estou mais perto de ti.

quinta-feira, junho 07, 2007

LÁGRIMAS OCULTAS




Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Tomo a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!




Florbela Espanca

segunda-feira, junho 04, 2007

VINTE ANOS DEPOIS


Vinte Anos Depois

Maria José Aranha de Rezende


Depois de tanto tempo decorrido,
Eis que te encontro novamente agora,
Face a face... alquebrado, envelhecido,
Tão diferente do que foste outrora!

Percebo, nos teus olhos contristados,
Que em mim também notaste alguma mudança.
É natural, vinte anos são passados,
E o tempo, no seu giro, não descansa!

Tão diferente já do que fomos! E em vão
Tentamos recompor os traços do passado.
Buscas em meu olhar um antigo clarão
E só vês um cristal sereno, desmaiado...

E em nossos olhos vê-se agora, refletida,
Como num claro espelho, a imagem do presente,
A dura realidade, a amarga lei da Vida,
E então, sem resistir, choramos tristemente,

Lágrimas não por mim nem por ti, na verdade,
Nem mesmo pelo amor que agora pouco importa!
Se choramos assim, choramos de saudade
Da nossa própria mocidade morta!

domingo, maio 20, 2007

APELO

Porque não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....



Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.




Poema de Miguel Torga

domingo, abril 29, 2007

MINHA ALDEIA


Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Âgulo novo, nova ideia;
outros graus, outras tazões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergam,
todos os homens convergem
no centro d aminha aldeia.
António Gedeão

quarta-feira, abril 25, 2007

POESIA


Não te amo mais.

Estarei mentindo dizendo que

Ainda te quero como sempre quis.

Tenho certeza que

Nada foi em vão.

Sinto dentro de mim que

Você não significa nada.

Não poderia dizer jamais que

Alimento um grande amor.

Sinto cada vez mais que

Já te esqueci!

E jamais usarei a frase

EU TE AMO!

Sinto, mas tenho que dizer a verdade

É tarde demais...

AutorClarice Lispector

P.S: Agora leia de baixo para cima.

segunda-feira, abril 23, 2007

ALGUÉM


Para alguém sou o lírio entre os abrolhos
e tenho as formas ideais do Cristo;
para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
e, se na terra existe, é porque existo.

Esse alguém, que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz,
não és tu, anjo meu idolatrado,
nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite me reclino e deito
melancólico, triste e fatigado,
esse alguém abre as asas no meu leito,
e o meu sono desliza perfumado.

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
por mim além dos mares! Esse alguém
é de meus olhos a esplendente aurora;
és tu, doce velhinha, ó minha mãe!

- Gonçalves Crespo -








quinta-feira, abril 19, 2007

SE RECORDO





Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.








Fernando Pessoa (Ricardo Reis) - 26/05/1930

O AMOR, QUANDO SE REVELA...





O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa

sábado, abril 14, 2007

LENDA


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, ainda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.



Fernando Pessoa

sexta-feira, abril 13, 2007

ORAÇÃO DA MAÇANETA

Não há mais bela música
que o ruido da maçaneta da porta
quando meu filho volta para casa.

Volta da rua, da vasta noite,
da madrugada de estranhas vozes,
e o ruido da maçaneta
e o gemer do trinco,
o bater da porta que novamente se fecha,
o tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto,
uma suave cantiga de ninar.

Só assim fecho os olhos,
posso afinal dormir e descansar.

Oh! a longa espera,
a negra ausência,as histórias de acidentes e assaltos
que só a noite como ninguém sabe contar!

Oh! os presságios e os pesadelos,
o eco dos passos nas calçadas,
a voz dos bêbados na rua
e o longo apito do guarda
medindo a madrugada,
e os cães uivando na distância
e o grito lancinante da ambulância!

E o coração descompassado a pressentir
e a martelar
na arritmia do relógio do meu quarto
esquadrinhando a noite e seus mistérios

Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa
com todos os ruídos secundários.
-Oh! os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e o festival dos passos que ganham a escada!
Nem as vozes da orquestra
e o tilintar de copos
e a mansa canção da chuva no telhado
podem sequer se comparar
ao som da maçaneta que sorri
quando meu filho volta.

Que ele retorne sempre são e salvo,
marinheiro depois da tempestade
a sorrir e a cantar.
E que na porta a maçaneta cante
a festiva canção do seu retorno
que soa para mim
como suave cantiga de ninar.

Só assim, só assim meu coração se aquieta,
posso afinal dormir e descansar.


Gióia Júnior

quinta-feira, abril 12, 2007

POESIA



'Por muito tempo achei
que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço
e invento exclamações alegres,
porque a ausência,
essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim'.


(Carlos Drummond de Andrade)

RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília de Meireles

segunda-feira, abril 09, 2007

PACIÊNCIA...






Isto é uma ternura...

domingo, abril 08, 2007

URGENTEMENTE





Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavra
sódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.



Eugénio de Andrade

sábado, abril 07, 2007

IMPROVISO DO AMOR- PERFEITO


Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.
Os sonhos foram sonhados, e o
padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.
Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe,
atrás do oceano que nos meus se alteia
entre pálpebras de areia...
Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.



Cecília Meireles

SER CRIANÇA




Queria ter um dia
só pra comer porcaria:Sorvete, chocolate e bombom.
Contar os dias de alegria e fantasia.
Querendo por querer.
Não é uma maravilha ?Jogar videogame, jogar bola,
E depois ir à escola.
Queria ser criança a vida inteira,
E nunca acabar a brincadeira.
Mas ser criança não é tão bom assim,
Todo mundo manda em mim !
Sei que devo aproveitar,
Sou criança, quero brincar!

DEBORAH GOULART VISNADI (11 anos)

sexta-feira, abril 06, 2007

POESIA


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.


Amo-te enfim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.


Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, abril 02, 2007

NÓS DOIS




Queria ter lhe conhecido antes, muito antes...
Para que nenhum de nós dois tivesse
medos ou cicatrizes.
Queria ter estado com você,
quando seu coração descobriu o que era AMOR.
Quando seu corpo descobriu o que era DESEJO.
E antes que pudesse sofrer,
eu estaria do seu lado,
amando-lhe.
entregando-me,
e juntos poder ter aprendido,
as lições da vida e do coração...
Queria ter lhe conhecido muito antes...
Quando suas esperanças começaram a nascer,
quando seus sonhos ainda eram puros,
e seus ideais ainda ingênuos...
Pena termos nos encontrado só agora,
já com o coração viciado em outros amores,
com uma imagem meio falsa,
do que é felicidade,
do que é entregar-se...
Queria ter lhe encontrado antes,
muito antes...
Numa nova vida,
num outro tempo,
em que não precisássemos temer o nosso futuro,
nem nossos sentimentos...



Vilma Galvão

sábado, março 24, 2007

FAÇA O SEU TESTE!

You Are a Red Flower
A red flower tends to represent power, seduction, and desire.At times, you are loving like a red tulip.And at other times, you're very enthusiastic, like a bouvardia.And more than you wish, your passion is a bit overwhelming, like a red rose.
What Color Flower Are You?

terça-feira, março 20, 2007

segunda-feira, março 19, 2007

POESIA


"Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!"



Miguel Torga

quarta-feira, março 14, 2007

A UM AUSENTE

(Carlos Drummond de Andrade)



Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade
viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora
eu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades
sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

domingo, fevereiro 11, 2007

DÊ-LHE FLORES!

Sugestão para o dia dos namorados

Se não souber o que lhe oferecer, dê-lhe flores!


terça-feira, fevereiro 06, 2007

PROMESSAS CUMPRIDAS


Por toda a corrente da nossa vida iremos deparar com muitos problemas que se nos afiguram difíceis ou impossíveis de transpôr, mas não nos devemos esquecer que não estamos sós. Depositar fé em Deus e nas suas promessas, dá-nos força para tudo superar. Deus é Pai e nunca abandona os seus filhos.

terça-feira, janeiro 23, 2007

J'AIME





Liguem o som e sigam a letra desta bonita canção de Adamo


J'aime quand le vent nous taquine
Quand il joue dans tes cheveux
Quand tu te fais ballerine
Pour le suivre à pas gracieux
J'aime quand tu reviens ravie
Pour te jeter à mon cou
Quand tu te fais petite fille
Pour t'asseoir sur mes genoux
J'aime le calme crépuscule
Quand il s'installe à pas de loup
Mais j'aime a espéré crédule
Qu'il s'embrasserait pour nous
J'aime ta main qui me rassure
Quand je me perds dans le noir
Et ta voix elle murmure
De la source de l'espoir
J'aime qu'en tes yeux couleur de brume
Me font un manteau de douceur
Et comme sur un coussin de plumes
Mon front se pose sur ton coeur


Uma canção dos velhos tempos e que, raramente ,se ouve !


sábado, janeiro 20, 2007

BONECA


Se eu vos disser que sou uma boneca, vocês pensam logo que eu sou bonita. "É uma boneca", não é isso que as pessoas costumam dizer? Preparem-se para uma surpresa: não sou bonita. Mesmo nada bonita. E ainda não fui capaz de descobrir por que razão... Terá havido algum erro na linha de produção? Será que faço parte de um projecto que afinal não vingou? Não faço ideia. Mas tenho a certeza absoluta de que sou única.

Quando estava na fábrica, esperando para ser enviada sabia lá para onde, olhava para as minhas irmãs, todas elas de longos cabelos loiros, de grandes olhos verdes, e julgava que era também assim. Confesso que foi um choque quando descobri que o meu cabelo era loiro, sim, mas não era macio, era rebelde e sem vida, e na verdade os meus olhos eram verdes, mas tão míopes que era obrigada a escondê-los atrás de grossas lentes... a minha pele, ao invés de saudavelmente fresca, estava coberta de borbulhas. Se a isto acrescentarem que os meus dentes mais pareciam os de um castor, bem... não é uma imagem muito lisonjeira, pois não? Era difícil viver com aquela realidade, principalmente na actual sociedade em que a aparência parece ter um papel tão importante e é quase obrigatório para qualquer mulher ter um aspecto saudável, belo, com uma bonita pele, o cabelo bem arranjado e dando a impressão de ter passado as últimas cinco horas a fazer ginástica!

Ali estava eu pois na loja, sentindo-me deslocada e todos os dias esperando que alguma menina apontasse para mim e dissesse: "Mamã, quero aquela..."Coisa que, infelizmente, não aconteceu. Eu era optimista por natureza mas à medida que o tempo passava tornava-me cada vez mais triste e sem esperança. Ninguém me compraria! Para que é que alguém quereria uma boneca feia? Dei voltas e voltas ao assunto na minha cabeça e concluí que a única solução era tornar-me bonita, não importava qual fosse o preço a pagar!Depois de uns quantos telefonemas, tive que admitir a verdade: o preço a pagar importava! Se eu queria fazer uma operação plástica ao nariz, um tratamento à pele num instituto de beleza e ficar com o cabelo brilhante e suave como a seda era melhor que pensasse em poupar bastante. Não fazia ideia de quanto dinheiro era necessário só para manter uma aparência decente... admito que foi uma enorme desilusão, mas consegui ultrapassá-la de uma forma inesperada: a fim de encher o tempo dediquei-me à leitura e depressa descobri que, em vez de mero passatempo, isso se estava a transformar numa verdadeira paixão. Em pouco tempo consegui ler todos os livros que havias na loja. E suspirava por mais. De forma que me tornei membro da Biblioteca local e pude ler tanto quanto queria: Kafka, Beauvoir, Sartre, Valtari, Remarque, Hemingway, Gorki, Tolstoi, Dostoievski, Kerouac... passava a maior parte do dia a dormir para poder estar em paz e silêncio enquanto trabalhava durante a noite, visto que eu já não me limitava a ler, estava a tirar um curso por correspondência. Queria ser economista. Já não me importava se alguém me iria comprar ou não. De facto, os meus planos seriam alterados se alguém pensasse em adquirir-me, agora que estava quase a completar os meus estudos...

Parece que a vida é feita de surpresas: fui inesperadamente comprada por uma jovem mulher que sem dúvida queria outra coisa mas pensou que eu talvez servisse. Comprou-me a fim de que a sua filha me oferecesse de presente a uma amiguinha. Fui embrulhada em papel colorido e levada para um lugar que não me pareceu muito longe da loja. Não pude ver nada, evidentemente, apenas ouvi o motor de um carro e, depois de dias de uma total escuridão fui subitamente rodeada de luz, risos e pessoas. Principalmente crianças.

Era uma bela festa com imensas coisas boas para comer, pratos de papel engraçados, chapéus de papel, refrigerantes, cachorros quentes, sanduíches cortadas em triângulo, bombons e um enorme bolo de aniversário com duas rosas de massapão e uma inscrição doce que dizia:

"Parabéns!"Uma rapariguinha de cabelo escuro e intensos olhos azuis agarrava-me com força. Era ela portanto a minha dona. Óptimo. Gostei dela no mesmo instante em que a vi. Pensei que nos tornaríamos boas amigas. Pela parte que me cabia, eu estava disposta a dar o meu melhor. Tudo estava a decorrer bem até que um dos convidados, uma loura magrinha, disse: "Mas que espécie de boneca é essa? É feia, feia, feia!"Todas as outras crianças romperam de imediato num coro acusatório: "Fei-a! Fei-a! Fei-a!"
-Consegues imaginar coisa mais horrível? Onde será que ela a arranjou, num caixote do lixo?-Bem, tenho que admitir que tem um certo charme...-Charme?! Que é que queres dizer com isso, "charme"? É algum novo sinónimo de feio?-Disparates! O que é a beleza, afinal de contas? É acima de tudo uma questão de moda, trata-se de dizer: "olha, isto está na moda, isto é bonito"-Deve estar a brincar!-Não, não estou!- ouvi o homem replicar. Ele era o pai da rapariguinha do aniversário. Esta conversa aconteceu alguns dias depois da festa. Eu já estava acostumada à linda casa que era agora o meu lar e percorria-a à vontade durante a noite. Deduzi que o homem (que era um artista plástico) tinha de ganhar bom dinheiro na sua profissão para poder ter uma casa como aquela. Tomou de novo a palavra e eu ouvi-o com atenção:-Se amanhã eu afirmasse : "Olhem, isto é Belo", todos acreditariam!-Bem, eu não!-Espera e verás - disse o artista, aspirando o fumo do seu charuto - Espera e verás...


No dia seguinte acordaram-me bastante cedo. Alguém me pôs um vestido de veludo preto, sapatos pontiagudos cor de prata e uma rapariga atraente fez-me um penteado extravagante. Sentaram-me numa cadeira de madeira que mais parecia um trono, luzes fortes atingiram-me no rosto e encandearam-me, o calor do estúdio quase me fez desmaiar.Uma semana mais tarde eu estava na capa das mais importantes revistas de moda do mundo. O telefone não parava de tocar convidando-me para comparecer em programas de televisão, desfiles de moda, entrevistas na rádio... pouco depois fui considerada a boneca do ano. Passaram-se alguns meses e fui eleita a boneca da década. Estilistas mundialmente famosos imploravam o privilégio de desenhar roupas para mim. Empresas de cosméticos ofereciam-me pequenas fortunas para que eu publicitasse os seus produtos.Eu anunciava perfumes franceses, roupas desportivas, carros, sabonetes, cremes... Cada vez que eu saía havia fotógrafos desejosos das minhas fotografias e pessoas desejosas do meu autógrafo. Havia até rumores de uma possível história de amor entre mim e um belo e famoso actor de Hollywood...Quanto a mim... bem, depois de um certo esforço consegui terminar o curso. Quando hoje em dia me vejo ao espelho, faço-o sem sentimentos desagradáveis. Vejo as lentes grossas (nunca me adaptei verdadeiramente às lentes de contacto), a pele cheia de imperfeições, o cabelo seco e, apesar da opinião do mundo inteiro, continuo a ver-me como uma boneca feia. Mas há duas grandes diferenças em relação à forma como eu me via antes: aprendi a aceitar-me tal como sou. E, graças aos meus estudos, consegui investir o dinheiro da melhor forma.

A menininha que ainda é a minha dona casou o ano passado e, no dia em que ela tiver uma filha, eu não terei ciúmes visto que, muito provavelmente eu tornar-me-ei na sua melhor amiga, na qual ela pode confiar e contar os seus mais íntimos segredos. E também assumirei com muito prazer o papel de baby sitter quando ela quiser sair com o marido.Por tudo isto assumo que sou uma boneca feliz.

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Depois de uma infância sem incidentes de maior (exceptuando o rapto de um gato siamês) frequentou o Liceu Francês e posteriormente andou pela Faculdade de Direito. Viveu no estrangeiro durante vários anos: no norte europeu (Suécia, Finlândia), em Espanha e ainda na América do Sul. Gosta de ler (T. Pratchett, Hemingway, Sartre, Pessoa e a lista seria longa) e, sobretudo, de escrever. Mesmo que seja para a gaveta... Contudo, já publicou umas coisas, nomeadamente no fanzine Sloboda, nas Selecções BD, na Rua Sésamo... e tem umas historietas guardadas, na expectativa/esperança de um dia arranjar algum editor que...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

DIA MUNDIAL DA PAZ



Se há tanta Paz


Se há tanta paz no azul que o céu abriga
e há tanto azul, que tanto bem nos faz;
se há tanto azul e há tanto céu, me diga:
por que é que o Homem não encontra a Paz?


Se há tanta paz no verde mar da onda,
que faz-se em verde e em branco se desfaz,
e há tantas ondas pelo mar, responda:
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz no olor das multicores
flores - orquídeas, rosas, manacás...
Se há paz em cada flor e há tantas flores,
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz nos cânticos suaves
que entoam na alvorada os sabiás...
Se há paz num canto de ave e há tantas aves,
por que é que o Homem não encontra a Paz?
Se há tanta paz na brisa que desliza
sobre as folhagens, tímida e fugaz...
Se há tanta paz na brisa e há tanta brisa,
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz nas expressões tão mansas
que, ao vir ao mundo, uma criança traz,
e a cada dia existem mais crianças,
por que é que o Homem não encontra a Paz?

Se há tanta paz nos corações com Fé-
que atrai o Bem e afasta as coisas más
-então oremos todos, já, de pé.
para que o Homem encontre um dia a Paz!



Autora - Luna Fernandes

domingo, dezembro 10, 2006

FELIZ NATAL

Presépio De Lata
Rui Veloso
Composição: Carlos Tê / Rui Veloso


Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz branca na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells.

Como era bom se todos tivessem Natal!

quinta-feira, dezembro 07, 2006

VINTE ANOS DEPOIS

Depois de tanto tempo decorrido,
Eis que te encontro novamente agora,
Face a face... alquebrado, envelhecido,
Tão diferente do que foste outrora!

Percebo, nos teus olhos contristados,
Que em mim também notaste alguma mudança.
É natural, vinte anos são passados,
E o tempo, no seu giro, não descansa!

Tão diferente já do que fomos!E em vão
Tentamos recompor os traços do passado.
Buscas em meu olhar um antigo clarão
E só vês um cristal sereno, desmaiado...

E em nossos olhos vê-se agora, refletida,
Como num claro espelho, a imagem do presente,
A dura realidade, a amarga lei da Vida,
E então, sem resistir, choramos tristemente,

Lágrimas não por mim nem por ti, na verdade,
Nem mesmo pelo amor que agora pouco importa!
Se choramos assim, choramos de saudade
Da nossa própria mocidade morta!



Maria José Aranha Rezende

domingo, dezembro 03, 2006

UMA VIDA - QUATRO ESTAÇÕES

Uma vida tem quatro estações:

  1. Na Primavera nascemos
  2. No Verão amadurecemos
  3. No Outono murchamos
  4. No Inverno morremos.

sábado, agosto 20, 2005

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é presiso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como fôr. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e a sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas na florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor a êsmo;depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, môlhos,strogonoffs - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?.

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.

segunda-feira, agosto 15, 2005

O PARTO SEM DOR


Pedro Monjardino, Cesina Bermudes e Seabra Dinis esforçados pioneiros do "parto preparado" em Portugal

CESINA BERMUDES

Dra. Cesina Bermudes. Tive o prazer e o privilégio de conhecer esta grande mulher. Pequenina de estatura mas com um coração sem fronteiras. Foi ela que me acompanhou no decurso da minha gravidez e foi ela quem assistiu ao parto.

Ainda me recordo da frase que ela dizia sempre que lhe aparecia uma mulher grávida: Gravidez não é doença! Depois, com a maior alegria, dava-nos conselhos e vivia cada situação como se as crianças fossem dela. Na realidade, todos ficaram na história como "os bébés Cesina",

Costumava fazer uma reunião de grávidas em casa dela para nos mostrar com fotos e desenhos como o nosso organismo é e como funciona.

Quando surgia algum parto mais difícil e demorado não saía do lado das grávidas chegando a dormir no chão ou em alguma cama desocupada na ocasião. Quando nos medicava, para começarmos logo a tomar o medicamento "emprestava-nos" uns tantos comprimidos que depois lhe devolviamos. Tudo o que sobrasse era-lhe entregue e destinava-se às menos favorecidas de quem ela cuidava com toda o carinho. Era uma mulher extraordinária, com uma energia exuberante. Fez todos os desportos, todas as viagens. Mas a principal aventura foi a introdução em Portugal do parto sem dor.

Nasceu a 20 de Maio de 1908, em Lisboa na freguesia dos Anjos e lembrava-se dos tempos da I Grande Guerra, "da falta de géneros e das bichas que havia às portas das mercearias e de todos os sítios que vendiam géneros alimentícios".

Cesina Bermudes acreditava na reencarnação. "Das minhas anteriores reencarnações não me lembro de nada. Mas nós temos tanta coisa que fazer neste mundo que não há possibilidade de o conseguir numa única vida. É muito mais inteligente que tenhamos vidas sucessivas para ir aprendendo a evolução, porque não há só a evolução física que o Darwin pôs em evidência. Há também uma evolução psíquica, dos sentimentos, dos pensamentos, das intuições, das criações. Como é possível chegar a criar uma sinfonia, a criar a ideia de uma catedral se as pessoas não tiverem já vindo cá várias vezes a este mundo para se treinarem na ideia da arte ou de qualquer outra coisa? Como é possível ser um místico, como um S.João da Cruz, ou um S. Francisco de Assis, se as pessoas não tiverem vindo aprender a ideia da fraternidade?"

Em 1954 vai a Paris estudar as técnicas do parto sem dor. Segundo ela era" absolutamente inconcebível que um acto perfeitamente fisiológico e natural fosse doloroso na mulher e fosse natural nas outras fêmeas mamíferas. É uma questão psicológica, mas para chegar a esta conclusão foram precisos uma quantidade de sábios. Só ao fim de muitos e muitos anos de medicina é que foi possível descobrir a importância do psicossomático no comportamento humano.".

Quando lhe perguntaram em que ser gostaria de reincarnar na próxima geração, respondeu:
"Se calhar voltava a ser médica. Em todo o caso será uma profissão liberal, porque é aquela onde se pode fazer o que se entende dever fazer. Precisava de uma reencarnação para me formar musicalmente. Nesta reencarnação desenvolvi, principalmente a capacidade de investigação científica. Sob o ponto de vista literário e desportivo também foi útil. Agora do ponto de vista musical não serviu para nada.".

Muito havia para dizer acerca desta mulher franzina, com passo apressado e o penteado de sempre: uma trança a emoldurar-lhe o rosto miúdo e o olhar vivíssimo.

Esta é a homenagem singela duma mulher que jamais a esquecerá.

Soube hoje que Cesina Bermudes partiu há quatro anos. Mas Cesina Bermudes continua entre nós. Bem-haja!

Leonor Costa

domingo, agosto 07, 2005

VAI AONDE TE LEVA O CORAÇÃO


"Antes de mais, importa dizer que estamos perante um romance já célebre e celebrado pelos múltiplos êxitos, desde o facto de se ter convertido no livro mais vendido em Itália nas últimas décadas até às numerosas traduções no mundo inteiro.

Livro-sensação, livro de descoberta ou de redescoberta e por isso mesmo livro não alheio à diversidade de reacções.

Através de um registo em que três gerações de mulheres dialogam, numa voz que reconta as suas vidas, Susanna Tamaro serve-se dessa estrutura narrativa para confrontar os diferentes tempos vividos e reavaliar este ciclo geracional. A leitura deste livro é enleante, quase hipnótica, comovente, o que justifica talvez o seu imenso sucesso internacional. De resto, a circulação do livro a esta escala surpreendente deve-se a um fenómeno de passagem de testemunho de leitor para leitor traduzido numa verdadeira consagração pública do romance de Susanna Tamaro que o tem mantido ininterruptamente no topo das preferências de leitura."
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Não encontrei melhor maneira de passar o meu testemunho do que citar algumas passagens deste livro que considero maravilhoso:

" A ideia do destino é algo que surge com a idade. Quando se tem os anos que tu tens, geralmente não se pensa muito nisso, tudo o que aontece é como se fosse fruto da nossa vontade. Sentimo-nos como um operário que, pedra sobre pedra, vai construindo à sua frente o caminho que deverá percorrer. Só muito depois é que se repara que o caminho já está construído, que alguém o traçou para nós, e que só nos resta seguir em frente. É uma descoberta que costuma fazer-se por volta dos quarenta anos, então começa-se a perceber que as coisas não dependem só de nós. É um momento perigoso, durante o qual não é raro escorregar-se para um fatalismo claustrofóbico. Para veres o destino em toda a sua realidade, tens de deixar passar mais alguns anos. Por volta dos sessenta, quando o caminho atrás de ti é mais comprido do que o que tens à tua frente, vês uma coisa que nunca tinhas visto antes: o caminho que percorreste não era direito mas cheio de encruzilhadas, a cada passo havia uma seta que apontava para uma direcção diferente; dali partia um atalho, de acolá um carreiro cheio de ervas que se perdia nos bosques. Alguns desse desvios fizeste-os sem te aperceberes, outros nem sequer os viste; tu não sabes se os que não fizeste te levariam a um lugar melhor ou pior; não sabes, mas sentes pena. Podias fazer uma coisa e não fizeste, voltaste para trás em vez de seguir em frente. O jogo da glória, lembras-te? A vida vai avançando mais ou menos da mesma forma.
Ao longo das encruzilhadas do teu caminho encontras outras vidas, conhecê-las ou não, vivê-las a fundo ou desperdiçá-las depende da escolha que fazes num segundo; embora o não saibas, entre seguir a direito ou fazer um desvio joga-se muitas vezes a tua existência, a existência de quem está perto de ti.".


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"Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de gual modo, deves estar nas coisas e sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar.".

quinta-feira, agosto 04, 2005

A CEIA DOS CARDEAIS


Peça em um acto, em verso, representada pela primeira vez no antigoTeatro de D. Amélia, em 24 de Março de 1902
Foram tantas as vezes que ouvi minha mãe dizer-me esta passagem da Ceia dos Cardeais, que nunca a esqueci.
CARDEAL GONZAGA, ao descrever aos 84 anos, seu amor aos 14 anos:
Quando lhe perguntaram:
"Em que pensa, cardeal?
Cardeal Gonzaga, como quem acorda, os olhos cheios de brilho, a expressão transfigurada
Em como é diferente o amor em Portugal!
Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento...
É o amor coração, é o amor sentimento.
Uma lágrima... Um beijo... Uns sinos a tocar...
Um parzinho que ajoelha e que se vai casar.
Tão simples tudo! Amor, que de rosas se inflora:
Em sendo triste canta, em sendo alegre chora!
O amor simplicidade, o amor delicadeza...
Ai, como sabe amar a gente portuguesa!
Tecer de sol um beijo e, desde tenra idade,
Ir nesse beijo unindo o amor com a amizade,
Numa ternura casta e numa estima sã,
Sem saber distiguir entre a noiva e a irmã...
Fazer vibrar o amor em cordas misteriosas,
Como se em comunhão se entendessem as rosas,
Como se todo o amor fosse um amor somente...
Ai, como é diferente! Ai, como é diferente!
Pode-se lá viver sem ter amado alguém!
Sem sentir dentro d'alma - ah, podê-la sentir -
Uma saudade em flor, a chorar e a rir!
Se amei! Se amei! - Eu tinha uns quinze anos, apenas.
Ela, treze. Um amor de crianças pequenas,
Pombas brancas revoando ao abrir da manhã...
Era minha priminha. Era quase uma irmã.
Bonita não seria... Ah, não... Talvez não fosse.
Mas que profundo olhar e que expressão tão doce!
Chamava-lhe eu, a rir, a minha mulherzinha...
Nós brincávamos tanto! Eu sentia-a tão minha!
Toda a gente dizia em pleno povoado:
"Não há noiva melhor para o senhor morgado,
Nem em capela antiga há santa mais santinha..."
E eu rezava baixinho: "É minha! É minha! É minha!"
Quanta vez, quanta vez, cansados de brincar,
Ficávamos a olhar um para o outro, a olhar,
Todos cheios de sol, ofegantes ainda...
Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda...
E, numa noite, a minha alma, a minha luz morreu!
Deus, se ma quis tirar, p'ra que foi que ma deu?
Para quê? Para quê?
Ah! Pois Deus não via que eu tinha coração!
Não via! Ah, não via! Não via!
Julgou que de um amor outro amor refloria,,
E matou-me... E matou-me!
Afinal,
Foi esse anjo, ao morrer, que me fez cardeal!
E eu hoje sirvo a Deus - a Deus, que ma levou...
Cardeal Rufo, o De Montmorency, limpando uma lágrima furtiva, enquanto as onze horas soavam no Vaticano:
Foi ele, de nós os três, o único que amou.