terça-feira, junho 04, 2024

 


As pessoas crescidas

"As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a
minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da mãe.
Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé
dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um
escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos
cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual
eu gatinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de
onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de
cintos.
Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos
remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias
cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa
ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável:
tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir ao almoço, com uma escovinha
especial.
Aconteceu-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas de dentes num estojo de
gengivas cor-de-rosa escondidas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a
troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores
de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas.
Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia
neles era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente
importantes do mundo: os bichos-da-seda e os guarda-chuvas de chocolate. Também
não gostavam de coleccionar gafanhotos, de mastigar estearina nem
de dar tesouradas no cabelo, mas em contrapartida possuíam a mania
incompreensível dos banhos e das pastas dentífricas e quando se referiam diante de
mim a uma parente loira, muito simpática, muito pintada, muito bem cheirosa e mais
bonita que eles todos, desatavam a falar francês olhando-me de banda com
desconfiança e apreensão.
Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido.
Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em português, como a
desavergonhada da Luísa. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de
chocolate por bifes tártaros. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar
duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando
nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido.
Claro que acabei o liceu, andei na faculdade, tratam-me por senhor doutor e há
séculos que ninguém se lembra de me mandar lavar os dentes. Devo ter crescido, julgo
eu, porque a parente loira deixou de me sentar ao colo e de me fazer festas no cabelo
provocando em mim uma comichão no nariz que me tornava lânguido e que aprendi
mais tarde ser o equivalente do que chamam prazer. O prazer deles, claro, muito menor
que o de mastigar estearina ou aplicar tesouradas na franja. Ou rasgar papel pela linha
picotada. Ou mostrar um sapo à cozinheira e vê-la tombar de costas, de olhos revirados,
derrubando as latas que anunciam Feijão, Grão e Arroz e que na realidade contêm
massa, açúcar e café.
Devo ter crescido. Se calhar cresci. Mas o que de facto me apetece é convidar a
parente loira para jantar comigo no Gambrinus. Peço ao criado que nos traga duas
doses de guarda-chuvas de chocolate e enquanto chupamos a bengalinha de plástico
mostro-lhe a minha colecção de gafanhotos numa caixa de cartão. Posso estar enganado
mas pela maneira como me fazia festas no cabelo, com olhos tão jovens como os meus,
quase que aposto que ela há-de gostar."

António Lobo Antunes
Livro de Crónicas

segunda-feira, maio 27, 2024

 


MENINA BONITA
"Menina bonita
não sobe à janela
porque o bicho mau
carrega com ela.
Se quer alvos ovos
arroz com canela
menina bonita
não sobe à janela.
Não sobe à janela
não sobe à varanda
porque lá está posta
uma fita de ganga.
E dentro da panela
uma fita amarela
e dentro do poço
a casca do tremoço
e lá no telhado
um gato malhado
e na chaminé
uma caixa de rapé
e no meio da rua
uma espada nua
e atrás da porta
uma vara torta
e dentro do ninho
um passarinho:
deixa-o no morno
e dá-lhe pãozinho."
Alice Vieira


                                 LADO A LADO

Pode o mundo andar adiantado
Nas mil e uma razões
Para gritar e apartar.
Caminharei a teu lado
Enquanto puder andar.
Pode o mundo ficar nublado
Sem o canto das aves,
Sem sombra de paz.
Seguiremos lado a lado
Não ficaremos para trás.
Levaremos o passado,
O presente e o depois
De branco nos vestiremos
E seguiremos lado a lado
Seremos sempre dois.
Quantas vezes teremos trocado
Palavras duras, horas amargas
E não valeram de nada.
Continuamos lado a lado
Fazemos a nossa estrada.
Tantos casos inacabados
Tanta coisa por dizer
E a nossa voz em novelo.
Caminharemos abraçados,
Amo o branco do teu cabelo..
CARLOS CAMPOS, poema inédito

 Não há vagas


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Ferreira Gullar 

quinta-feira, maio 23, 2024

 'Depois?'


"Depois eu ligo
Depois eu faço
Depois eu falo
Depois eu mudo
Depois eu passeio
Depois eu viajo

Deixamos tudo para depois, como se depois fosse o melhor.

O que não entendemos é que...
Depois o café esfria,
Depois a prioridade muda,
Depois o encanto se perde
Depois o cedo fica tarde,
Depois a saudade passa,
Depois tanta coisa muda,
Depois os filhos crescem,
Depois a gente envelhece,
Depois o dia anoitece,
Depois a vida acaba."

António Lobo Antunes

terça-feira, maio 21, 2024

 Doença

O médico serenou Juca Poeira.
Que ele já não padecia da doença
que ali o trouxera em tempos.
E o doutor disse o nome
da falecida enfermidade:
“Arritmia paroxística supraventricular”
Juca escutou, em silêncio,
com pesar de quem recebe condenação.
As mãos cruzadas no colo
diziam da resignada aceitação
Por fim, venceu o pudor
e pediu ao médico
que lhe devolvesse a doença.
Que ele jamais tivera
nada tão belo em toda a sua vida.

Mia Couto

 POEMA ESQUISITO

"Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.
Adélia Prado

sexta-feira, maio 03, 2024

 

QUARTA-FEIRA, 18 DE NOVEMBRO DE 2009

Ruy Belo

E tudo era possível
.
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
.
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
.
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
.
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
.
Ruy Belo

 O Estudante Alsaciano

    Antigamente, a escola era risonha e franca.
    Do velho professor as cans, a barba branca,
    Infundiam respeito, impunham sympathia,
    Modelando as feições do velho, que sorria
    E era como creança em meio das creanças.
    Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
    Corriam para a escola; e nem sequer assomo
    De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
    Quem vae para uma festa. Ao começar o estudo,
    Elles, sem um pesar, abandonavam tudo,
    E submissos, joviaes, nos bancos em fileiras,
    Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
    Attenta, gravemente — uns pequeninos sabios.
    Uma phrase a animar aquelle bando imbelle,
    Ia ensinando a este, ia emendando áquelle,
    De manso, com carinho e paternal amor.

    Por fim, tudo mudou. Agora o professor,
    Um grave pedagogo, é austero e conciso;
    Nunca os labios lhe abriu a sombra d’um sorriso
    E aos pequenos mudou em calabouço a escola
    Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
    Lá dentro, hoje, o francez é lingua morta e muda:
    Unicamente o allemão ali se falla e estuda,
    São allemães o mestre, os livros e a lição;
    A Alsacia é allemã; o povo é alemão.
    Como na propria patria é triste ser proscripto!
    Frequentava tambem a escola um rapazito
    De severo perfil, energico, expressivo,
    Pallido, magro, o olhar intelligente e vivo
    — Mas de intima tristeza aquelle olhar velado
    Modesto no trajar, de lucto carregado...
    — Pela patria talvez! — Doze annos só teria.
    O mestre, d’uma vez, chamou-o á geographia:

    — "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de lucto?
    Quem te morreu?"
    — "Meu pae, no último reduto,
    Em defeza da patria!"

    — "Ah! sim, bem sei, adeante...
    Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
    Quaes são as principaes nações da Europa? Vá!"

    — "As principaes nações são... a França..."
    — "Hein? que é lá?...
    Com que então, a primeira a França! Bom começo!
    De todas as nações, pateta, que eu conheço,
    Aquella que mais vale, a que domina o mundo,
    Nas grandes concepções e no saber profundo,
    Em riqueza e esplendor, nas lettras e nas artes,
    Que leva o seu domínio ás mais remotas partes,
    A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
    D’onde irradia a sciencia a illuminar a terra,
    A maior, a mais bella, a que das mais desdenha,
    Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Allemanha!"

    Elle sorriu com ar desprezador e altivo,
    A cabeça agitou n’um gesto negativo,
    E tornou com voz firme:

    — "A França é a primeira!"
    O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
    Bate o pé, e uma praga energica lhe escapa.

    — "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mappa!"
    O alumno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
    O rosto afogueado; e emquanto os estudantes
    Olham cheios de assombro aquelle destemido,
    Ante o mestre, nervoso, audaz e commovido,
    Timido feito heróe, pygmeu tornado athleta,
    Desaperta, febril, a sua blusa preta,
    E batendo no peito, impavida, a creança
    Exclama:
    — "É aqui dentro! aqui é que está a França!"

                                                                                   Acácio Antunes

segunda-feira, outubro 02, 2023


 Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


António Botto

Foto de Aleksandr Krivickij

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Á TUA ESPERA



Primeiro são os teus passos pela escada.
A madeira a dizer-me que chegaste.
Depois a porta
 a pouco e pouco aberta.
e o silêncio que só prova que já entraste

Pela luz do teu cigarro eu adivinho
Que caminho tem as roupas pelo chão
E tu pensas que eu ainda estou dormindo
E eu penso que aprendi já a lição
E então, pé ante pé, braço ante braço
Deitas-te a meu lado quase a medo
E atrasas o relógio que há no quarto
Para, se eu acordar, pensar ainda é cedo

E cedo, sinto e sofro a tua mão
Descendo pelo meu corpo devagar
Eu penso que aprendi já a lição
E juro que não vou nunca mais acordar

Pergunto-te a dormir
- que horas são?
Protesto, digo não mas, como sempre
Acabo com os teus lábios no meu peito
E os teus dedos brincando ardendo no meu ventre
E abro-te o meu corpo de mulher
Esqueço a raiva, a mágoa, as amarguras
Cá dentro nasce o sol, já é manhã
E o relógio do quarto ainda bate as duas

Primeiro são os teus passos pela escada...

quarta-feira, julho 17, 2013

O TEU OLHAR

O Teu Olhar


Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"