quinta-feira, outubro 25, 2012

MEDITAÇÃO NA PASTELARIA






Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

*

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe o tempo todo?
Desconfio que não...)


Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!

*

Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia
Unha
Quebrada de melancolia...


Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,

Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.


Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca,1958

terça-feira, outubro 09, 2012

Lágrimas de crocodilo






Por que dizemos "lágrimas de crocodilo"?

Você já deve ter escutado a expressão "lágrimas de crocodilo" em referência a alguém que chora, indicando que o choro é fingido, falso ou hipócrita. Mas por que se diz isso? Será que os crocodilos choram, mesmo?

De acordo com o professor Ari Riboldi, em seu livro O Bode Expiatório, a origem da expressão é biológica. Mas não tem a ver com fingimento.

Quando o crocodilo está digerindo um animal, a passagem deste pode pressionar com força o céu da boca do réptil, o que comprime suas glândulas lacrimais. Assim, enquanto ele devora a vítima, caem lágrimas de seus olhos.

São lágrimas naturais mas obviamente não significam que o animal se emocione ou sinta pena da sua presa. Daí vem a expressão "lágrimas de crocodilo", querendo dizer que, embora a pessoa chore, suas lágrimas não significam que ela esteja sofrendo, e muitas vezes são mesmo apenas um fingimento.


Net



sexta-feira, setembro 28, 2012

Sem título

terça-feira, setembro 25, 2012

POESIA A UM AMIGO

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos
saudades de todas as conversas jogadas fora, das
descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos
tantos risos e momentos que partilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.

Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou
por algum desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe...
nas cartas que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até
que os dias vão passar, meses...anos... até este
contacto se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo....

Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão:
"Quem são aquelas pessoas?"
Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto!
"Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!"

A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente......
Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.

E, entre lágrimas abraçar-nos-emos.
Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes
desde aquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a
viver a sua vida, isolada do passado.

E perder-nos-emos no tempo.....
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas
adversidades sejam a causa de grandes tempestades....



Fernando Pessoa


sábado, setembro 22, 2012

Nirvana

NIRVANA


Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.
A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
termina ali o ser, inerte, ocioso...
E quando o pensamento, assim absorto,
emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,
À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.

ANTERO DE QUENTAL

quinta-feira, setembro 13, 2012

Saudades de quem partiu....

A morte é a curva da estrada,


Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.



(Fernando Pessoa)   Com saudade, à minha amiga Isabel do Carmo

sábado, agosto 18, 2012

Não sei quantas almas tenho



Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,



Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem,

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: <>

Deus sabe, porque o escreveu.



Fernando Pessoa





quarta-feira, agosto 08, 2012

Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheço, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que não senti afinal. 


Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.



Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, junho 08, 2012

LOVE....

terça-feira, maio 01, 2012

Falcão numa floreira

segunda-feira, abril 30, 2012

Mês de Maio



TODOS SABEMOS QUE MAIO É UM MÊS MÁGICO.
HÁ FADAS NO AR, PARA CONCRETIZAREM DESEJOS, APOIAR E NUTRIR A NATUREZA.
SE NÃO ACREDITA, NÃO TEM IMPORTÂNCIA...ELAS EXISTEM NA MESMA...
COM FADAS OU SEM ELAS, SEJA FELIZ, POIS ESTÁ ATRASADO...(há muito tempo que já o devia SER).






Bjs na ALMA,






SILVIA






Quem quase morre, ainda VIVE, mas quem quase vive, já MORREU.(anónimo)

domingo, abril 08, 2012

Sem título

Não sei se quero descansar por estar realmente cansada, ou se quero descansar para desistir...

Clarice Lispector




quarta-feira, abril 04, 2012

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Varra os pensamentos negativos!!!

domingo, fevereiro 26, 2012

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domingo, dezembro 25, 2011

BOAS FESTAS




Para todos os meus amigos/as que por aqui passarem. Com Beijo....
Leonor


sexta-feira, fevereiro 04, 2011

DILEMA

Dilema
Augusta Schimidt

Às vezes me vejo em cada situação...
Meu pensamento voa... Divaga...
Tenho duvidas de difícil solução

Não sei se faço poesia,
Ou se canto alegria...

Poeta sei que não sou,
Pois meu coração mora no peito
E coração de poeta
Mora nas pontas dos dedos

Vê lá se isso tem jeito?

Não sei se entro em cirandas
Onde os olhos brincam com os sonhos,
Pois às vezes eles adormecem
E a noite misteriosa nos mostra
Estrelas com rugas e magoas

Não sei se oro ou se choro
Pelo pássaro azul que voou
Talvez um dia ele volte
E me conte o quanto me amou

Penso nisso tudo
Não sei como resolver...
Mas que Dilema!


Campinas/SP


domingo, janeiro 09, 2011

MOTIVO


Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço,- não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo: - mais nada.


©Cecília Meireles In Viagem, 1939

quarta-feira, janeiro 05, 2011

CARTA AO FILHO

Não vivas sobre a terra como um estranho
Um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
Sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
Com a sombra e a luz,com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas



.Nazim Hikmet, (1902 - 1963) c. 1960. Traduzido do inglês por Carlos Eugênio Marcondes de Moura.Escritor e poeta turco nascido em Salonica, Grécia, então parte do império otomano, que, perseguido por suas idéias políticas, marcou profundamente a literatura turca ao romper com a tradição islâmica e sob a influência dos futuristas russos, propôs a despoetização da poesia. Pensando seguir uma carreira militar, entrou para a academia naval de Istambul e serviu na Marinha, da qual foi expulso (1919) por atividades revolucionárias. Partiu para Moscou, onde estudou ciências políticas e sociais por cinco anos, na Universidade Comunista de Moscou. Regressou à Turquia (1924), após a proclamação da república e tornou-se conhecido com seus primeiros poemas, de cunho patriótico. Condenado (1938) pela suposta participação num complô, após ser posto em liberdade (1950) por força de uma intensa campanha internacional, radicou-se então em Moscou, onde morreu. Publicou as coletâneas 835 satir (1929) e 1 + 1 = 2 (1930), os poemas históricos Sesini kaybeden sehir (1931) e Benerci kendini niçin öldürdü? (1932), as peças para teatro Kofatos (1932) e Unutulan adam (1935) e lançou uma autobiografia em Berlim (1961)..in

terça-feira, dezembro 21, 2010

RESUMO

" Se sou alegre ou sou triste?...

Francamente, não o sei.

A tristeza em que consiste?

Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.

Verdade, não sou o que sou.

Sou qualquer alma que existe

E sente o que Deus fadou.



Afinal, alegre ou triste?

Pensar nunca tem bom fim...

Minha tristeza consiste

Em não saber bem de mim...

Mas a alegria é assim... "





- Fernando Pessoa -

domingo, dezembro 19, 2010

NATAL DE QUEM?


Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
-- Está bem, eu sei!
-- E as garrafas de vinho?
-- Já vão a caminho!
-- Oh mãe, estou p’ra ver
Que prendas vou ter.
-- Que prendas terei?
-- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
-- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
-- Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papéis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
A fazer beicinho:-- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar

E o Menino, quase a chorar:-- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
Foi este o Natal de Jesus?!!!

João Coelho dos Santos
(in Lágrima do Mar – 1996)