terça-feira, maio 21, 2024

 POEMA ESQUISITO

"Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.
Adélia Prado

sexta-feira, maio 03, 2024

 

QUARTA-FEIRA, 18 DE NOVEMBRO DE 2009

Ruy Belo

E tudo era possível
.
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
.
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
.
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
.
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
.
Ruy Belo

 O Estudante Alsaciano

    Antigamente, a escola era risonha e franca.
    Do velho professor as cans, a barba branca,
    Infundiam respeito, impunham sympathia,
    Modelando as feições do velho, que sorria
    E era como creança em meio das creanças.
    Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
    Corriam para a escola; e nem sequer assomo
    De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
    Quem vae para uma festa. Ao começar o estudo,
    Elles, sem um pesar, abandonavam tudo,
    E submissos, joviaes, nos bancos em fileiras,
    Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
    Attenta, gravemente — uns pequeninos sabios.
    Uma phrase a animar aquelle bando imbelle,
    Ia ensinando a este, ia emendando áquelle,
    De manso, com carinho e paternal amor.

    Por fim, tudo mudou. Agora o professor,
    Um grave pedagogo, é austero e conciso;
    Nunca os labios lhe abriu a sombra d’um sorriso
    E aos pequenos mudou em calabouço a escola
    Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
    Lá dentro, hoje, o francez é lingua morta e muda:
    Unicamente o allemão ali se falla e estuda,
    São allemães o mestre, os livros e a lição;
    A Alsacia é allemã; o povo é alemão.
    Como na propria patria é triste ser proscripto!
    Frequentava tambem a escola um rapazito
    De severo perfil, energico, expressivo,
    Pallido, magro, o olhar intelligente e vivo
    — Mas de intima tristeza aquelle olhar velado
    Modesto no trajar, de lucto carregado...
    — Pela patria talvez! — Doze annos só teria.
    O mestre, d’uma vez, chamou-o á geographia:

    — "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de lucto?
    Quem te morreu?"
    — "Meu pae, no último reduto,
    Em defeza da patria!"

    — "Ah! sim, bem sei, adeante...
    Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
    Quaes são as principaes nações da Europa? Vá!"

    — "As principaes nações são... a França..."
    — "Hein? que é lá?...
    Com que então, a primeira a França! Bom começo!
    De todas as nações, pateta, que eu conheço,
    Aquella que mais vale, a que domina o mundo,
    Nas grandes concepções e no saber profundo,
    Em riqueza e esplendor, nas lettras e nas artes,
    Que leva o seu domínio ás mais remotas partes,
    A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
    D’onde irradia a sciencia a illuminar a terra,
    A maior, a mais bella, a que das mais desdenha,
    Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Allemanha!"

    Elle sorriu com ar desprezador e altivo,
    A cabeça agitou n’um gesto negativo,
    E tornou com voz firme:

    — "A França é a primeira!"
    O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
    Bate o pé, e uma praga energica lhe escapa.

    — "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mappa!"
    O alumno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
    O rosto afogueado; e emquanto os estudantes
    Olham cheios de assombro aquelle destemido,
    Ante o mestre, nervoso, audaz e commovido,
    Timido feito heróe, pygmeu tornado athleta,
    Desaperta, febril, a sua blusa preta,
    E batendo no peito, impavida, a creança
    Exclama:
    — "É aqui dentro! aqui é que está a França!"

                                                                                   Acácio Antunes

segunda-feira, outubro 02, 2023


 Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


António Botto

Foto de Aleksandr Krivickij

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Á TUA ESPERA



Primeiro são os teus passos pela escada.
A madeira a dizer-me que chegaste.
Depois a porta
 a pouco e pouco aberta.
e o silêncio que só prova que já entraste

Pela luz do teu cigarro eu adivinho
Que caminho tem as roupas pelo chão
E tu pensas que eu ainda estou dormindo
E eu penso que aprendi já a lição
E então, pé ante pé, braço ante braço
Deitas-te a meu lado quase a medo
E atrasas o relógio que há no quarto
Para, se eu acordar, pensar ainda é cedo

E cedo, sinto e sofro a tua mão
Descendo pelo meu corpo devagar
Eu penso que aprendi já a lição
E juro que não vou nunca mais acordar

Pergunto-te a dormir
- que horas são?
Protesto, digo não mas, como sempre
Acabo com os teus lábios no meu peito
E os teus dedos brincando ardendo no meu ventre
E abro-te o meu corpo de mulher
Esqueço a raiva, a mágoa, as amarguras
Cá dentro nasce o sol, já é manhã
E o relógio do quarto ainda bate as duas

Primeiro são os teus passos pela escada...

quarta-feira, julho 17, 2013

O TEU OLHAR

O Teu Olhar


Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

sábado, julho 13, 2013

MENINA GORDA


Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.

É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas da sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
"Como esta menina está gorda, bonita!"
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo a brilhar.

[Rui Ribeiro Couto]

sábado, junho 01, 2013

DIA DA CRIANÇA


sexta-feira, maio 03, 2013

AUSÊNCIA

Ausência

 
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces 
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. 
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida 
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. 
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. 
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados 
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada 
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. 
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face. 
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. 
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. 
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. 
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. 
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. 
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. 
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. 
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada. 
 
MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA. 

sábado, abril 20, 2013

Os sulcos da sede

 
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
.
(in Os Sulcos da Sede, Eugénio de Andrade)
 
 
 
 

sexta-feira, abril 12, 2013

Sorriso

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um sorriso é como um dia de Sol!

quinta-feira, março 28, 2013

ABRAÇO

De repente , deu vontade de um abraço...
Uma vontade de entrelaço, de proximidade ... de amizade, sei lá !
Talvez um aconchego amigo e meigo, que enfatize a vida e amenize as dores ... que fale sobre os amores, seja afetuoso e ao mesmo tempo forte ...
Deu vontade , de poder ter saudade de um abraço.
Um abraço que eternize o tempo e preencha todo o espaço.

Mas que faça lembrar do carinho, que surge devagarinho, na magia da união dos corpos, das auras, sei lá!
Lembrar do calor das mãos, acariciando as costas, a dizerem : - Estou aqui !
Lembrar do enlaçar dos braços, envolventes e seguros, afirmando : - Estou com você !
Lembrar da transfusão de força, ou até da suavidade do momento, sei lá.
Então, pensei em como chamar esse abraço: abraço poesia, abraço força, abraço união, abraço suavidade, abraço consolo e compreensão, abraço segurança e justiça, abraço verdade, abraço cumplicidade ?

Mas o que importa é a magia desse abraço, a fusão de energias que harmoniza, integra o todo e se traduz no cosmos, no tempo e no espaço...
Só sei que agora , deu vontade desse abraço :
Um abraço que desate os nós, transformando-os em envolventes laços ...
Que sirva de "colo", afastando toda e qualquer angústia...
Que desperte a lágrima de alegria e acalme o coração...
Um abraço que traduza a amizade, o amor e a emoção.
E para um abraço assim, só consegui pensar em você .
Nessa sua energia, nessa sua sensibilidade, que sabe entender o porque dessa minha vontade.



 
Dourival José


Leonor Costa
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, março 27, 2013

MUDANÇA DE HORA!

No dia 31 de Março de 2013, à 01h00, deve adiantar o relógio 60 minutos para proceder à mudança de horário para o horário de verão. Não se esqueçam!

sexta-feira, março 15, 2013


quinta-feira, outubro 25, 2012

MEDITAÇÃO NA PASTELARIA






Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

*

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe o tempo todo?
Desconfio que não...)


Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!

*

Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia
Unha
Quebrada de melancolia...


Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,

Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.


Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca,1958

terça-feira, outubro 09, 2012

Lágrimas de crocodilo






Por que dizemos "lágrimas de crocodilo"?

Você já deve ter escutado a expressão "lágrimas de crocodilo" em referência a alguém que chora, indicando que o choro é fingido, falso ou hipócrita. Mas por que se diz isso? Será que os crocodilos choram, mesmo?

De acordo com o professor Ari Riboldi, em seu livro O Bode Expiatório, a origem da expressão é biológica. Mas não tem a ver com fingimento.

Quando o crocodilo está digerindo um animal, a passagem deste pode pressionar com força o céu da boca do réptil, o que comprime suas glândulas lacrimais. Assim, enquanto ele devora a vítima, caem lágrimas de seus olhos.

São lágrimas naturais mas obviamente não significam que o animal se emocione ou sinta pena da sua presa. Daí vem a expressão "lágrimas de crocodilo", querendo dizer que, embora a pessoa chore, suas lágrimas não significam que ela esteja sofrendo, e muitas vezes são mesmo apenas um fingimento.


Net



sexta-feira, setembro 28, 2012

Sem título

terça-feira, setembro 25, 2012

POESIA A UM AMIGO

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos
saudades de todas as conversas jogadas fora, das
descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos
tantos risos e momentos que partilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.

Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou
por algum desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe...
nas cartas que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até
que os dias vão passar, meses...anos... até este
contacto se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo....

Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão:
"Quem são aquelas pessoas?"
Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto!
"Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!"

A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente......
Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.

E, entre lágrimas abraçar-nos-emos.
Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes
desde aquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a
viver a sua vida, isolada do passado.

E perder-nos-emos no tempo.....
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas
adversidades sejam a causa de grandes tempestades....



Fernando Pessoa


sábado, setembro 22, 2012

Nirvana

NIRVANA


Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.
A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
termina ali o ser, inerte, ocioso...
E quando o pensamento, assim absorto,
emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,
À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.

ANTERO DE QUENTAL

quinta-feira, setembro 13, 2012

Saudades de quem partiu....

A morte é a curva da estrada,


Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.



(Fernando Pessoa)   Com saudade, à minha amiga Isabel do Carmo